Uma história de Natal

A mais bela prenda que o menino recebeu

– Uma história de Natal

Aquela era uma noite muito fria. A pequena aranha estava encolhida numa trave que suportava o telhado esburacado do velho barracão que servia de estábulo a uma vaca.

Nessa noite havia mais três ocupantes – um casal e o burro que transportara a mulher.

Pouco depois a mulher deu à luz. Dar à luz era mesmo a expressão mais adequada pois, no exato momento em que o menino nascia, no céu surgia uma luz nova: uma estrela mais brilhante do que as outras que cintilavam na noite.

Havia também uma música – parecia o som de muitas flautas – que a aranha nunca tinha ouvido. Seria o vento a assobiar entre os ramos das árvores e os buracos do telhado?

Os pastores das redondezas vieram ver o que havia naquele estábulo e merecia estes sinais do céu. Enternecidos com o que viam, deixaram algumas prendas: mantas feitas com a lã das suas ovelhas, que eles próprios usavam para se protegerem do frio da noite. A aranha teve pena de nada ter para oferecer.

Na completa escuridão, a chuva caía por um buraco e batia nas traves, molhando tudo.

A aranha podia abrigar-se noutro local. Era mesmo o que ia fazer quando reparou que quem estava lá em baixo não tinha como escapar aos salpicos. Tinha descoberto a prenda que podia dar ao menino…

Escolheu o local em que o telhado estava mais roto, por onde entravam grossos pingos de chuva e o vento frio assobiava. A cortina de fios ia crescendo e começava a cumprir o seu papel…

A aranha continuava na sombra a trabalhar, com a mestria das suas oito patas, os finos fios que prendia ora no telhado ora nas traves mais distantes. Era um trabalho paciente, demorado.

O menino pareceu perceber o esforço que a aranha fazia para lhes dar mais conforto e levantou o bracito num aceno de agradecimento.

Nesse momento, pela abertura do telhado, entrou a luz da nova estrela que surgira no céu. Uma luz fraca, mas que fez brilhar os fios que a aranha ia tecendo numa linda teia.

José e Maria, extenuados pela longa viagem e pela infrutífera procura de alojamento condigno na cidade de Belém, já dormiam. Só o menino, o burrito e a vaca puderam assistir, deslumbrados, à magnífica obra de arte feita pela inspirada aranha.

A aranha trabalhara quase dois dias sem parar, mas o sorriso do menino tinha sido recompensa suficiente para o seu esforço.

Passados uns dias, chegaram a Belém uns estranhos viajantes, guiados pelos sinais dos céus. Os visitantes eram homens sábios e ricos que viram na nova estrela a indicação de que nascera o Messias esperado, e dirigiram-se ao velho estábulo – um local inesperado para o nascimento de tão importante personagem.

Deixando as numerosas comitivas que os acompanhavam, os reis desceram dos seus enfeitados camelos e cavalos e entraram no estábulo.

Os reis magos traziam belos presentes: ouro, incenso, mirra… e exibiam-nos. A pobre aranha nem sabia o que era aquilo, mas percebia que era algo valioso. Estava contente por aquele menino receber tão ricas prendas, de homens tão poderosos e tão sábios que vieram de tão longe guiados pela estrela, mas, ao mesmo tempo, um pouco triste por não ter mais para oferecer ao menino que a sua teia feita com aqueles fios sem qualquer valor.

Também percebia que os reis ofereciam aqueles presentes para mostrar a sua própria importância… e ela era só uma pequena aranha.

O menino era também pequenino, mas muito, muito especial. Parecendo perceber o que ia no coração daqueles reis, o que queriam mostrar com aquelas prendas; entendendo o que a aranha sentia, levantou o bracito, a apontar o alto. Os olhos de todos levantaram-se ao mesmo tempo que as nuvens se abriam e a luz entrou, mais viva do que antes, pelo teto esburacado. Ouviu-se um coro de espanto ao verem a teia toda iluminada… pequenas gotas de água refletiam a luz… um espetáculo nunca visto.

– Nem a mais prendada bordadeira do meu reino era capaz de fazer um bordado tão belo. – disse um dos reis.

– Nem a melhor tecedeira faria tão fino tecido. – acrescentou outro.

– Nem o melhor dos meus ourives faria tão valiosa filigrana. – completou o terceiro.

Após uns momentos de admiração, os três sábios, em coro, concluíram:

– Este menino é verdadeiramente filho de Deus!

Os reis magos foram embora, mas nunca mais esqueceram tudo o que viram…

 

Desde esse tempo, os amigos de Jesus jamais deixaram de iluminar o Natal com imensas luzes, longos fios entrançados cheios de pequenas lâmpadas, iluminações com muitas formas e cores, mas… nenhuma iguala, em beleza e graciosidade, aquela teia de aranha.

Teia 2

Quando em 2009 pensei em colocar algo no blogue pelo Natal apercebi-me que nunca tinha escrito uma história de Natal. Foi dessa constatação que nasceu o conto que agora reduzi significativamente para ser publicado no Jornal Timoneiro. Foi apresentada, também este ano, na atividade “Chá de Letras” subordinada ao tema “Natal”, com alunos do sétimo ano e respetivos encarregados de educação. A nova dimensão do conto tornou viável ser publicado também neste blogue.

Em tempos, sonhei publicar um livro, mas sem ilustrações a condizer não fazia sentido. Quem sabe um dia a versão mais longa venha a ser publicada.

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As primeiras andorinhas

Chegaram hoje as primeiras andorinhas.

Apesar do ar ainda frio, vêm lembrar

(com o espalhafato típico de vizinhas)

Que a primavera não tarda a chegar.

.

Trouxeram nelas a chave que devolve,

Às mais doces memórias, liberdade.

O calor que nos estimula, nos envolve,

Um tempo que é sempre de novidade.

.

Brotaram do solo, os bolbos adormecidos.

Encheu-se o ar de perfumes e as cores

E os chilreios despertaram-me os sentidos.

Vi-me mesmo a colher um braçado de flores.

.

Hoje as árvores encheram-se de verdura

E entre as folhas e flores pude notar:

A promessa de fruta doce e madura;

O labor das abelhas recolhendo o néctar.

.

Voltaram as correrias e os risos de crianças,

Lagartixas, borboletas coloridas, libelinhas…

Tudo quanto guardava na arca das lembranças,

Tudo me trouxeram, hoje, de novo, as andorinhas.

.

Este texto, escrito no dia 9 de Fevereiro de 2006, veio-me à memória a propósito de um desafio, num grupo do facebook, de escrever um texto com 100 palavras sobre a Primavera.

 
imagem colhida em http:// estupefacto.blogs.sapo.pt/2010/03/ 
 
 
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Fábula para maiores de dezoito anos e crianças inteligentes

.

Numa reserva natural

Algures (em Portugal)

Era tempo de eleições,

Um tempo de ilusões.

.

Qualquer bicho percebia

Que a situação não ia

Tão bem como outrora

(e já não era de agora)

.

E se tudo estava mal

Mudar era essencial…

.

Havia duas propostas

Que pareciam opostas,

Descritas em termos latos.

E eram dois os candidatos:

O coelho e o urso.

.

Muito hábil no discurso,

Quando o debate surgiu,

O coelho concluiu:

«Todos temos de ajudar

Só eu posso liderar.

.

O urso gosta é de mel…

Não cumpre bem o papel.

E eu cá só como erva

Sou o melhor para a reserva».

.

Os animais convencer

Foi fácil, fez-se eleger.

Mas se era bom a falar

Não se via melhorar

A situação da reserva.

Até pagavam a erva

Que antes havia a rodos

E sempre fora de todos.

Imagem colhida em http://www.imagensdeposito.com/tags/1/wallpaper+de+coelho.html

.

O urso, pois que perdera,

Ainda nada dissera.

(estaria a hibernar?

Saíra para apanhar ar?)

.

E os pobres animais

Esses não podiam mais,

Que o coelho exigia

Muito mais do que havia.

.

Tinha amigos com poder

E eram mais três a comer…

Engordava o gato bravo

Mais a cobra e o lobo.

E estes, os que lucravam

Com o que os outros poupavam,

Detinham-se a elogiar:

«Tudo está a melhorar…»

.

Tinham mais um aliado

Que aparecia em qualquer lado

E com todos convivia:

O que a toupeira escrevia

Tornava-se, no jornal,

A verdade oficial

E quem caía em desgraça

Era “bicho de má raça”.

E tudo o que sugeria

– «Corte-se tal regalia» –

Era logo posto em prática

Na situação já dramática

E tudo se complicava…

.

Mas se alguém se queixava

Era logo apontado,

Era logo acusado

De não estar a ajudar,

De só querer prejudicar

O esforço comunitário,

De piorar o cenário.

.

E se alguém contestava,

Logo uma fera rosnava.

Calava-se o desordeiro,

Que até parecia um cordeiro.

Reforçava o seu poder

O coelho, estão a ver?

.

E andava a bicharada

Cada dia mais calada.

Até que um pequeno rato

Constatou, um dia o facto:

«Está a reserva estragada.

Afinal não mandas nada,

Não passas de um fantoche!»

«Que infâmia, que deboche!

Nunca fui tão ultrajado»

Diz o coelho, inflamado.

.

Foi o rato para a prisão.

«Se tu me deres permissão,

Eu livro-te desse traste,

Antes que o problema alastre.

Engolia-o dum travo.»

Sugeriu o gato bravo.

E o ratito sumiu,

Nunca mais ninguém o viu.

.

Nos elogios, a esmo,

Que fazia a si mesmo,

O líder dramatizava

E, solene, afirmava

Com ar triste e infeliz:

«Ninguém louva o que fiz…

Há tanto bicho ingrato.»

.

Foi-se perdendo o recato

E o lobo nem disfarça,

Já farto daquela farsa,

Já dá ordens diretas,

Ordens nem justas nem retas,

E ai de quem desobedeça,

Ai de quem não agradeça…

.

O coelho e os parceiros,

O trio de interesseiros,

Vivem todos regalados

Cada vez mais anafados.

.

Para o resto da bicharada

Já não sobra quase nada.

E nem se podem queixar…

Pode o trio não gostar.

.

Cresce a revolta surda,

Pela situação absurda:

Governa quem eles não queriam,

Em quem nunca votariam.

.

Vai ficando evidente

Que quem manda realmente

É o trio apoiante

E o coelho bem-falante

Que elegeram, afinal,

Tem papel ornamental.

.

Reinam as indecisões:

Não há fáceis soluções,

Talvez outra liderança

Facilite a mudança.

.

Têm que ser realistas

Não há respostas simplistas,

Mas se todos trabalharem

Se todos colaborarem…

.

Talvez, querem acreditar,

Se cada qual ao votar

Pensar pela sua cabeça

Algo de bom aconteça…

.

Mas cuidado, que as toupeiras

Não fazem, interesseiras,

Críticas imparciais

E não são todos iguais

Os que querem liderar…

.

É preciso acautelar:

Bichos de falinhas mansas

Querem é encher as panças.

.

Bicho que queira mandar

Não basta saber falar.

Tem que mostrar ter jeito

E ser bicho de respeito;

Tem que ter ideias novas;

Tem que ter já dado provas

De amor ao território

E um trabalho meritório.

.

Por isso, antes de votar,

Cada qual deve pensar,

Com uma só influência:

A sua própria consciência…

 
João Alberto Roque

.

Esta foi uma fábula que escrevi há uns meses (junho ou julho) mas que me parece cada vez mais atual.

Qualquer semelhança com factos ou pessoas reais poderá não ser pura coincidência. Aliás, acontecimentos recentes parecem dar maior sustentação ao enredo… E estamos cada vez mais enredados.

Também a nível local, algo que aconteceu nesta quarta feira, na minha cidade (Gafanha da Nazaré) me deixou-me preocupado, por sentir que as pessoas, mesmo as que têm mais responsabilidades, não conseguem ser verdadeiramente independentes e livres para decidir em consciência.

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A canção da bicharada

Na sequência do texto anterior, também este foi feito para a ópera infantil baseada no meu livro “Pirilampo e os deveres da escola” e como expliquei no post anterior, perdeu-se na rede…

Apenas mantive parte do título da proposta inicial e que acabou por ser a apresentada em público.

Espero que gostes.

Imagem retirada de  http://www.baixakijogos.com.br/wii/animal-crossing-city-folk/previa/3347.html


Vem cantar à desgarrada

A canção da bicharada

Um, dois, três

É agora a tua vez:


A vaca dá leite branco

Ó que grande disparate…

Sabe bem que eu prefiro

Com sabor a chocolate.


O coelho é desconfiado

E que bem que ele ouve…

Adora trincar cenouras

E umas folhinhas de couve.


O gato faz companhia,

brincadeiras divertidas.

Sobe a muros e telhados

Pensa que tem sete vidas…


Vem cantar à desgarrada

A canção da bicharada

Um, dois, três

É agora a tua vez:

O galo no seu poleiro

Canta alto e bom som

Acordando a bicharada

Sem nunca fugir do tom.

A galinha poedeira

Põe o ovo no seu ninho

Para depois o chocar

E nascer um pintainho.

Da raposa não se gosta

Na escola e nos galinheiros

Mas apenas na floresta

Entre urzes e pinheiros.

Vem cantar à desgarrada

A canção da bicharada

Um, dois, três

É agora a tua vez:


O leão, na selva, é rei

Dá rugidos de tremer

E quem o vê mais por perto

Foge logo, a correr.


O elefante é trombudo

com a mania de meter

A sua tromba em tudo

E nunca mais esquecer.

A girafa é só pescoço!

Tem altura e nada mais

Mas olha sempre de cima

Para os outros animais.

Vem cantar à desgarrada

A canção da bicharada

Um, dois, três

É agora a tua vez


A borboleta esvoaça

Entre as ervas e as flores

Está a mostrar, vaidosa,

As asas de lindas cores.


A formiga trabalhava

Não gostava de cantar

Aprendeu com a cigarra

Passa a vida a assobiar.


O mosquito toda a noite

Vem zumbir-me ao ouvido

E não me deixa dormir…

É um bichinho atrevido.


Vem cantar à desgarrada

A canção da bicharada

Um, dois, três

É agora a tua vez


O canário está alegre

Na sua farda amarela

Canta sempre e encanta

Com a sua voz tão bela


A coruja pia triste

Mas nunca perde o pio

Sem bela voz não desiste

De cantar ao desafio


Devia saber o mocho

Que a noite é para dormir

E o dia, enquanto há sol,

É para brincar, para rir…

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