Poema para o “Dia dos Namorados”

Corações no estendal

Deixei-me assaltar

Sabendo que há quem goste de roubar
Por vezes eu esqueço as cautelas
E, se o tempo está bom, abro as janelas
E ponho o coração a arejar

Com perigo de apanhar correntes de ar
Que sempre deixam graves sequelas…
Não será maior risco se em vez delas
deixar o coração asfixiar?

Num risco, pelo seguro, não coberto
Amiúde já fui alvo de ladrões
Saber manter a calma, é o mais certo

Pois creio que quem rouba corações
Nunca virá armado e decerto
O fará com a melhor das intenções.

Escrevi este soneto em fevereiro de 2017 e, depois de um ano a maturar, optei por publicá-lo.
A decoração na biblioteca da minha escola para o “Dia dos Namorados” incluía um “estendal” de corações e lembrei-me deste poema que fala de pôr “o coração a arejar”.

A todos os meus leitores, onde quer que estejam, um feliz “Dia dos namorados”.

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Carta de Amor

Alda 1981

Aldinha, meu amor,

Tenho quatro retratos teus
Nas paredes do meu quarto
Que me iludem a saudade
Até ao momento em que parto.

Na brancura da parede
Andava o meu olhar perdido
Teus retratos são o verde
Neste Alentejo ressequido.

Cheguei a pensar até
Que gostava de os ver
Mas mudei de opinião
Ao começar a escrever.

Os retratos são bonitos,
Fica a parede composta,
Mas nada substitui
A pessoa que se ama.

(não rima mas é verdade
E é isso que interessa)
Ainda não sei quando irei
Mas quero ver-te depressa.

Um beijo…

(Cuba, 8 de Outubro de 1985)

Escrevi esta carta de amor tinha 23 anos. Neste dia dos namorados resolvi recuperá-la.
Perdi todos poemas que escrevi na juventude, mas este teve a sorte de ser guardado por alguém mais organizado que eu…

Escrita num tempo em que não havia correio eletrónico ou SMS, a carta lá seguiu, pelo correio, desde a Cuba até Vouzela… onde estávamos a começar o ano letivo, o primeiro depois do estágio. Para estarmos juntos, fazíamos quase mil quilómetros em cada fim-de-semana. Só a minha parte eram 860 km e 14 horas de viagem.

Trinta anos depois, sabe bem relê-la e recordar tudo isso.

Diz o poeta:

“Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas. “

o que vale é que eu estou numa idade em que isso já não me preocupa e concluo como o poeta:

“Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas. “

(extractos de Todas as cartas de amor são ridículas  – Álvaro de Campos – Heterónimo de Fernando Pessoa)

Aos leitores do meu blogue, um feliz dia dos namorados.

 

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