Finalmente o sol

O facebook lembrou-me desta história escrita há três anos para um grupo de que fazia parte na altura. Havia uma condição que nem sempre era fácil de cumprir: os textos tinham que ter exatamente cem palavras (Drabbles).
Achei que ficava bem no blogue, onde já estão outras dentro da mesma lógica.

Para ler bem o texto, clica na imagem para a ampliar.

Finalmente o sol

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Encontros – coletânea de escrita criativa

Deixem-me hoje falar-vos de um novo livro, com o título “Encontros”, resultado dos trabalhos de um grupo de amigos – A tertúlia Et Quoi. Tem cerca de 270 páginas, com trinta por minha conta.

Em breve, teremos novidades sobre os nossos “Encontros”. A coletânea que andamos a cozinhar há muito está quase no ponto. Em breve será servida aos apreciadores.

Para já deixo-vos com a capa, elaborada pelo Pedro Fontoura sobre uma foto da Olinda Morgado, dois talentosos e multifacetados elementos da nossa tertúlia.

encontros

Quando chegar da gráfica, logos vos enviarei um convite para o lançamento.

No artigo anterior referi a ida ao lançamento da coletânea Lugares e Palavras de Natal. Um fim de tarde agradável. Mas o dia foi todo ele dedicado às palavras e algo mais.

O sábado já tinha começado bem, no que diz respeito ao “coração, cabeça e estômago”. A começar uma agradável moqueca de peixe, confecionada pelo amigo Carlos Corga. Depois das deliciosas sobremesas, passámos aos contos, igualmente deliciosos. Eu contribuí com Três peixes gordos. O desafio era escrever um conto começando pelo início de um conto alheio. A minha escolha recaiu no início do conto Um peixe gordo de Branquinho da Fonseca, do seu livro Bandeira Preta.

Quando acabou a tertúlia literária (e gastronómica) rumei à estação e apanhei o comboio para o Porto, numa decisão de última hora, mas gostei de ter ido participar no lançamento de Lugares e Palavras de Natal.

Gostei ainda da económica e calma viagem de comboio, acompanhado da leitura: na ida de Bandeira Preta e, no regresso, dos contos de Natal da coletânea de que dei conta aqui.

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Lugares e Palavras de Natal

A mais bela prenda

De forma inesperada, recebi um convite para enviar um texto para uma coletânea de Natal, organizada pela Lugar da Palavra Editora. Apesar de um pouco renitente, acabei por enviar um texto escrito em 2009 e que já conheces pois faz parte destas infantilidades desde 2014, embora numa versão mais curta (mesmo a versão agora publicada teve que levar alguns cortes para caber nos critérios definidos pela editora).

A primeira reação dos editores foi muito simpática e venceu as minhas resistências. Acabou selecionado e publicado. Neste sábado, no Porto, decorreu a apresentação do livro. Gostei da experiência e, “se a tanto me ajudar o engenho e a arte”, como diria o poeta, no próximo ano voltarei a participar.

Para ler o meu texto podes adquirir a coletânea à editora, ou ler aqui.

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Alice e o Chá de letras

Alice Vieira

Alice Vieira tem estado em destaque nas bibliotecas escolares do Agrupamento de Escolas da Gafanha da Nazaré e do resto do concelho. Resolvemos realizar, na Biblioteca, mais uma sessão da atividade “Chá com Letras, com os alunos do 8º Ano, dedicada à escritora. As minhas colegas bibliotecárias desafiaram-me a escrever um texto em que usasse alguns dos títulos das obras de Alice Vieira. Apesar de andar cheio de testes e relatórios para corrigir, esta tarefa tornou-se a única em que era capaz de pensar e resultou nos dois textos que se seguem. Diverti-me a escrevê-los… espero que gostem de os ler. Destacados (a negrito e itálico) estão os títulos das obras de Alice Vieira.

 I

Alice tem muita imaginação e inventou um país de maravilhas. Vejam lá onde eu vim cair:

Tudo começou com a Rosa, Minha Irmã Rosa, que em 1979 acompanhou Paulina ao Piano. A música era algo de extraordinário e Eu Bem Vi Nascer o Sol n’ Os Olhos de Ana Marta, A Bela Moura, quando conheceu Fábio O Lindo. Desde O Tempo da Promessa, tornaram-se As Árvores que Ninguém Separa.

Continuei a Viagem à Roda do meu Nome pel’As Mãos de Lam Seng e conheci Macau: da Lenda à História cheia de Graças e Desgraças na Corte de El Rei Tadinho.

A Vida nas Palavras de Inês Tavares estava complicada para Este Rei que eu Escolhi. Precisava mesmo de encontrar A Espada do Rei Afonso. Os Profetas, sem grande sucesso, diga-se em abono da verdade, tentavam desvendar A Adivinha do Rei para encontrar A Arca do Tesouro. As Três Fiandeiras munidas de Fita, Pente e Espelho tentavam ajudar. Marcada com A fita cor-de-rosa, Úrsula, a Maior, que ainda conhecera Leandro, Rei de Helíria, lia-me um dos Contos de Grimm Para Meninos Valentes, mas havia Um Ladrão debaixo da Cama. Fugi até ao Promontório da Lua sobre o Tejo e lá encontrei um fulano, com o Caderno de Agosto debaixo do braço e o ar de quem é dono disto tudo. Queria vender-me As Moedas de Ouro de Pinto Pintão, mas eu desconversei… Disse que queria mesmo era a lua. Respondeu-me, de imediato, com ar sério:

– A lua não está à venda, mas posso vender-lhe Os anéis do diabo. Imagina os poderes que terias.

Respondi-lhe que estava farto de Manhas e patranhas, ovos e castanhas.

Como percebeu que eu não estava interessado, esfumou-se e só vi, de relance, Dois Corpos Tombando na Água. Uma voz do fundo das águas disse que não devia brincar com coisas sérias. Só então percebi que tinha estado a falar com O Filho do Demónio.

Assustado, ouvi Um Estranho Barulho de Asas e reparei que estava ali O Pássaro Verde. Parecia triste e contou-me O Que Dói às Aves. Entre tantas Expressões com História, percebi finalmente O que Sabem os Pássaros e pude assim resolver a Charada da bicharada. Depois despediu-se dizendo: Se Perguntarem por mim, Digam que Voei.

Eu, como não voo, corri. Às Dez a Porta Fecha e eu não podia atrasar-me. Tinha Meia Hora Para Mudar a Minha Vida. Se escapar desta, vou passar apenas a Viajar nos livros.

II

Alice conhece bem a nossa região pois a Costa Nova – onde costuma ficar no Lote 12 – 2º Frente – é a sua preferida entre as Praias de Portugal para apreciar as Águas de Verão, enquanto toma uma Bica Escaldada e um Chocolate à Chuva.

Se virem Um Fio de Fumo nos Confins do Mar é bem possível que seja a Alice a cozinhar. Tanto faz Pezinhos de Coentrada como um Livro com Cheiro a Chocolate, ou a Baunilha, a Morango, a Caramelo, a Canela, a Banana. Tudo…

Foi ela que cozinhou a famosa Flor de Mel para O Casamento da Minha Mãe.

Quando se junta com os amigos, a coisa sai Picante – Histórias Que Ardem na Boca e que não são para todos. Mas aproveitem… É O Que se Leva Desta Vida.

Ela sabe até De que são Feitos os Sonhos… E tu, já descobriste A Que Sabe Esta História?

Imagem colhida em http://www.publico.pt

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Crepúsculo

Crepúsculo
 

Todos os fins de tarde, Lúcia ia até a esplanada junto ao farol e ficava a ler até quase serem horas de o sol se esconder no horizonte. Depois levantava-se, caminhava até à Meia-laranja, vivia o pôr-do-sol e permanecia ali todo o tempo que durava o crepúsculo, vendo as cores quentes do horizonte a diluírem-se no azul gradualmente mais frio e mais escuro. Regressava a casa, com uma lágrima ao canto do olho, já a escuridão tomara conta do céu.

Era um hábito que mantinha religiosamente. Ao início ainda lhe parecia sentir na sua, a mão de Fernando, mas com o passar do tempo e o avolumar da solidão, o crepúsculo cada vez se tornava um momento mais penoso, por força das recordações contraditórias.

Felizmente a vida de Fernando não tivera um crepúsculo. Fora uma luz que se apagara bruscamente, traído pelo coração que sempre estivera disponível para a amar. Lúcia não sofrera ao vê-lo sofrer. Sofria agora a sua ausência.

Quantas vezes, desde que se conheceram, naquele local e àquela hora que dispensa o relógio, o pôr-do-sol e o crepúsculo que lhe sucedia tinham sido ocasião para celebrar a vida. Quantas revelações, quantas decisões felizes, tinham tido por cenário aquele mesmo local e aquela hora mágica. Foi também ali que Fernando a pediu em casamento e ela prontamente lhe disse que sim; ali decidiram que ficariam para sempre a viver na Barra; ali ele ficou a saber que ia ser pai; …

Os anos passaram. Viram os filhos crescer. Viram-nos partir, primeiro Tomé e depois Cristina, para construírem a vida longe dos pais.

Quantas vezes Lúcia e Fernando voltaram àquele lugar, na transição do dia para a noite, para se deixarem encantar pela beleza sempre renovada daqueles instantes. O marulhar das ondas e os gritos das gaivotas que se estendiam pelo areal constituíam a banda sonora desses momentos de felicidade.

Lúcia nasceu longe dali, num vale encaixado entre montanhas, que o sol iluminava apenas quando já ia alto no céu e o ocaso não tinha por companhia aquelas cores que a viriam a fascinar.

Foi nas primeiras férias na praia que se apaixonou pelo pôr-do-sol sobre o mar, pelo crepúsculo.

Havia sempre gente que passeava por ali, mas Lúcia reparou num jovem, apaixonado como ela por aquele fim da tarde e que, tal como ela, escolhera a Meia‑laranja para o admirar. Olhavam inicialmente na mesma direção, mas acabaram por olhar também um para o outro. As férias terminaram com eles de mãos dadas, enamorados um do outro e com uma paixão comum por aquele espetáculo de luz.

Lúcia levara, como sempre, um livro, mas estava incapaz de ler. O tom dramático da filha, deixara-a preocupada. Perdera o emprego e não estava a conseguir outro que lhe permitisse sobreviver, continuar a pagar a renda de casa, … Viria acolher-se na casa da mãe, se ela não se importasse.

Lúcia nem pensou duas vezes. Claro que a filha e o neto eram era bem‑vindos.

Enquanto caminhava rumo à Meia-laranja, Lúcia ia tensa. Na memória tinha algumas discussões antigas com a filha e temia que o convívio forçado, sobretudo numa fase difícil da vida de Cristina – o divórcio primeiro, o desemprego depois – gerasse novas fricções.

Sentou-se no muro da meia-laranja e olhou o céu. A obra de arte que tinha na sua frente, com cores inimitáveis, e em suave mutação, teve o dom de a acalmar. Pensou que, pelo menos, não estaria mais sozinha. Aprenderiam a viver juntas.

Cristina depressa encontrou um emprego. Era mal pago e tinha um horário que seria impossível de aceitar se não contasse com a ajuda da mãe para ir buscar o neto à escola e dar-lhe o jantar.

Lúcia ficou maravilhada com a inteligência e com a sensibilidade do rapazinho.

Ali estava ela, na esplanada do costume, à hora do costume. Diferente era o livro que levava e… a companhia. Leu-lhe uma história infantil.

Depois o passeio até à Meia Laranja. Lúcia e Fernando, de mão dada.

Ficaram em silêncio olhando o pôr-do-sol. Lúcia recordou-se das primeiras vezes que o apreciara. Nos olhos fixos e maravilhados do neto reviu os do seu amado.

– Ó avó, sabes que o teu nome significa luz? – disse ele com um brilho dourado nos olhos azuis e entusiasmo na voz.

– Sim, sei. E tu, sabes que tens o nome de um grande homem?

– Sim, o do avô Fernando.

Fernando olhava, deslumbrado, as cores do crepúsculo que se iam desvanecendo.

Lúcia reencontrara, na beleza daquele ocaso e na companhia do neto, a paz de espírito de que precisava para não mais sentir a solidão, a escuridão que se segue a cada crepúsculo.

 

imagem colhida em http://www.facebook.com/photo.php?fbid=3518316407738&set=o.159495297397563&type=1&relevant_count=1

 

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Só vendo, como S. Tomé

A mamã diz-me para estar sossegada, mas não consigo… é a primeira vez que vou voar. Quer-me sentada, junto dela. Isso faço eu, todos os dias. Ela está é nervosa, desde a chegada ao aeroporto, cheia de medo. Eu cá, não… Sou Pardal.

Nesta janela cabem tantos aviões… Em qual deles irei? Aquele branco e vermelho é tão lindo. São todos. Quando disser às minhas amigas que já andei de avião, vão ficar cheias de inveja. Gostava de levar comigo a Cláudia e a Patrícia, os meninos todos do terceiro ano.

Finalmente, conhecerei o meu avô Salustino Pardal e comerei as lagostas que ele pesca. Na carta que me escreveu, diz que são as melhores do mundo. Vou visitar a terra onde os meus pais nasceram e que é também, mas só um nadinha, o meu país: S. Tomé.

Mas eu sou, um pouco, como S. Tomé: só vendo é que acredito. Prometiam há tanto tempo… Será que é mesmo desta? Só quando estiver sentada no avião, quando apertar o cinto de segurança e o avião levantar voo é que acredito que vou mesmo voar.

Vai ser bué da fixe. Melhor do que andar na roda gigante da Feira de Março, que foi a coisa mais excitante que fiz… até hoje.

imagem retirada de http://mil-hafre.blogspot.com/2009/12/destino-mundo-lusofono.html


Este pequenino texto resultou de um exercício feito num trabalho de casa (no Curso Livre de Escrita Criativa), sobre o ponto de vista do narrador, neste caso na primeira pessoa: uma criança excitada com a perspectiva de voar pela primeira vez.

Tínhamos um número limitado de linhas… não nos podíamos esticar muito.

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Os exageros da mamã

Frequento, desde há três semanas, um curso de escrita criativa na Universidade de Aveiro. Assumi como objectivo pessoal repetir cada um dos exercícios propostos numa perspectiva de escrita para a infância. O primeiro trabalho de casa que eu fiz, apesar de não ter participado na aula em que foi leccionado o tema (fui chamado apenas à quarta aula), tratava-se de descrever um objecto partindo de outros sentidos que não a visão. Acho que não é difícil descobrir qual o objecto que eu usei.

Deixo-te com esse texto… até porque não há tempo para mais.

 

Os exageros da mamã

Encontrei aquele objecto… encantou-me: uma forma que encaixa na mão, suave, liso, uma rodinha em cima, mas… não roda quando passo o polegar.

Não magoa. É inofensivo. A mamã é mesmo exagerada.

Ela proibiu-me, mas … como funcionará?

Rodei com mais força. Agora sim.

À terceira percebi: com o dedo em cima daquela peça ao lado da roda, a chama não apaga.

É agradável: aquece o dedo mas não queima…

E um papel… será que arde?

Ui, tão depressa! Tive de largá-lo.

Uf, que sorte! E se não apagasse?

Afinal, a mamã tinha razão.

Não vai gostar de saber que desobedeci. Tenho que limpar tudo: as flores, a água da jarra – tudo, menos o buraco no tapete – arejar a sala, para a livrar deste cheiro e… contar-lhe como aconteceu.

Irá ralhar muito?

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