Fonseca

Mais uma vez fui convidado para  falar, na Semana da Leitura, com os alunos do oitavo ano da Escola Secundária da Gafanha da Nazaré, a minha escola.

Desta vez, decidi lançar-lhes um desafio: pegar numa história minha e escrever um final para a mesma.

Também os visitantes do blogue podem responder ao desafio, escrevendo um final como comentário ou enviando-o para o meu endereço de correio electrónico – jafroque@gmail.com .

Depois eu próprio colocarei o meu final.

Para começar lê a primeira parte:

Fonseca

tem mão no caso

O fim de tarde alongava as sombras. Fonseca levava um saco de lixo ao contentor que ficava a poucos metros da porta do prédio antigo onde vivia, num apartamento do segundo andar. Caminhava devagar, sem pressas, como fazia agora tudo na sua vida de reformado da Guarda Nacional Republicana.

Quando abriu o contentor e atirou lá para dentro o saco com o seu lixo, os últimos raios de sol iluminaram um outro saco de lixo, do contentor já cheio, e uma forma chamou-lhe a atenção.

Foi num instante a casa, a um ritmo nele pouco habitual e regressou, ofegante, trazendo um canivete, um par de luvas de látex, uma lanterna e um saco de plástico.

Com todo o cuidado, calçou as luvas, abriu o canivete e, sob a luz da sua lanterna, cortou o saco de plástico que estava no contentor do lixo e abrindo o saco que trouxera, transferiu para lá a mão. De facto, o seu olhar treinado não o enganara. A forma que lhe chamara a atenção era mesmo uma mão.

Estava ali um mistério a pedir para ser resolvido… e ele ia dedicar-se a ele a tempo inteiro (se havia agora algo que Fonseca tinha muito era tempo). Haveria de descobrir o resto do corpo a que pertencera aquela mão.

Agora já não era o polícia de secretária que tinha de atender o telefone e tomar nota das ocorrências de quem acorria ao Posto. Agora sentia-se um verdadeiro detective. Como já não estava ao serviço, poderia considerar-se um detective particular e, palavra de Fonseca, haveria de resolver aquele caso. Os sonhos que o tinham levado a escolher aquela profissão iam agora ter uma oportunidade. Ia poder ser o protagonista duma história policial como a de tantos filmes que vira ou livros que lera.

O resto do conteúdo daquele saco não era merecedor de especial atenção.

Como nada mais havia que o prendesse ali, regressou ao seu escritório. Sim, porque agora que era um detective particular, tinha que ter um local de trabalho. A sala do seu apartamento ia ter de servir.

Depositou o saco com a mão sobre a mesa e sentou-se, numa cadeira, a pensar. Mas não lhe ocorria maneira de começar a deslindar aquela meada de que apenas tinha uma ponta solta. De qualquer modo era já noite e dificilmente iria encontrar alguma coisa. Amanhã, bem cedo iria começar a sua investigação. Estar para ali a olhar não resolvia nada.

Provavelmente a melhor maneira de dar tempo às suas célulazinhas cinzentas, como diria o seu colega Poirot, dos livros da Agatha Cristhie, de processar toda a informação, era fazer outra coisa. Tinha ainda a mesa do jantar por acabar de limpar e foi o que fez. Lavou a loiça e viu o noticiário na televisão. Este falava de uma série de assuntos que usualmente o interessavam mas, desta vez, havia algo que lhe ocupava a cabeça… mais concretamente uma mão.

Quando se deitou custou-lhe a adormecer mas acabou por ceder ao cansaço e às emoções daquele fim de dia.

Acordou de madrugada com um ruído, na rua, em que não costumava reparar… o camião do lixo estava a esvaziar o contentor – o seu contentor – e foi nesse momento que Fonseca se apercebeu do primeiro revés na sua investigação. Não tinha analisado com cuidado o conteúdo daquele saco. Só tinha retirado a mão e procurado se havia mais alguma parte, mas não dera atenção ao resto do conteúdo que estava agora misturado dentro do camião que ele ouvia, naquele momento, a arrancar.

O lixo de uma pessoa diz muito sobre ela. Naquele caso poderia haver lá dentro várias pistas ou mesmo a solução, mas…  era tarde demais.

Já não conseguiu voltar a adormecer. Levantou-se às sete, tomou o pequeno‑almoço e saiu para a rua.

Começou por dar atenção ao contentor. A sua localização era o primeiro dado a analisar. Encontrava-se próximo de uma esquina, no cruzamento de duas ruas estreitas de uma zona com muito comércio: alguns cafés, restaurantes – um deles chinês, tal como uma daquelas lojas que vendem de tudo – e ainda muitas lojas de roupa, um minimercado e duas pensões baratas, escritórios de advogados e muita gente, maioritariamente idosa, que vive em apartamentos ainda mais velhos. Algumas casas degradadas estão entaipadas mas escondem um mundo que muitos preferem ignorar.

Fonseca conhecia bem aquele meio e tinha que transformar isso num trunfo e não numa ocasião para se desleixar. Tinha de agir com método.

Subiu a primeira rua atento a todos os pormenores. O bloco que levava ia servindo para algumas anotações.

Desceu a mesma rua pelo outro passeio. Resolveu proceder da mesma forma sistemática com as restantes ruas. No seu bloco havia já dois registos de locais que justificavam uma segunda visita.

De qualquer modo, era hora de almoço e tinha que se despachar para chegar à hora combinada com um dos seus colegas de profissão.

Andrade era, como Fonseca, um antigo guarda reformado, como ele sem compromissos familiares. Costumavam almoçar juntos duas vezes por semana, para pôr a conversa em dia e para manterem os laços de amizade. Andrade conhecia bem Fonseca por isso  achou que, naquele dia, havia alguma coisa estranha – um brilhozinho diferente nos olhos e o rosto afogueado… se calhar estava com febre  – e perguntou-lhe se estava tudo bem com ele. Fonseca foi um pouco enigmático. Disse-lhe só que tinha um caso na mão, ou melhor: entre mãos. Pediu desculpa mas afirmou que não podia entrar em detalhes e que, se conseguisse ter sucesso na sua investigação, depois lhe contaria.

Costumavam ficar a tarde toda a jogar dominó ou sueca se tivessem adversários. Nesse dia, aí pelas dezasseis horas, logo que chegou mais uma pessoa que podia substituí-lo na sueca, Fonseca pediu desculpa e saiu. Tinham perdido a maioria dos jogos, o que lhe valera alguns remoques do colega, pela sua falta de concentração que o tinha feito cometer erros infantis, ele que até costumava ser muito bom jogador.

Assim ficava toda a gente satisfeita, talvez tirando os adversários. Andrade teria um novo parceiro mais capaz, do que ele estava nessa tarde, de se concentrar no jogo. Fonseca teria oportunidade de se dedicar àquilo que, de facto, ocupava o seu espírito.

Acabou de ver a rua que faltava, sem ter encontrado nada suspeito e, depois, passou a concentrar toda a sua atenção nos dois locais mais promissores.

Chegou ao primeiro e, como havia vários clientes, achou que podia entrar e tirar uma dúvida, antes de ser abordado por alguém. Entrou, dirigiu-se ao local das suas dúvidas e voltou a sair. Estava meio frustrado mas, ao mesmo tempo, meio satisfeito: tinha agora um só foco de atenção e ele tinha quase a certeza de que lá encontraria a chave do seu mistério. Tudo haveria de encaixar bem…

Era uma loja de roupa exclusivamente para senhoras, com um ar envelhecido, embora as roupas mostrassem um certo bom gosto, na opinião de Fonseca.

Ninguém na loja, excepto uma senhora sentada junto a um balcão a ler uma revista com um ar enfastiado, que levantou os olhos quando reparou numa pessoa junto à montra. Fonseca sabia que se ali entrasse agora, seria imediatamente assaltado com perguntas. Mas como já tinha sido visto achou que era melhor não recuar. Entrou. Tal como ele previra, a senhora abeirou-se dele, antes de poder esclarecer as suas dúvidas.

Para ganhar tempo, resolveu pedir para ver umas luvas de senhora.

Contava ter algum tempo para bisbilhotar no local das suas suspeitas mas o que não contava era com a eficiência da comerciante, que já lhe estava a colocar vários pares de luvas à frente.

Fonseca estava encurralado… Não precisava das luvas para nada. Resolveu ignorar as luvas e ir direito ao assunto. Pegou, decidido, no belo manto azul que parecia esconder algo, que ele esperava que fosse a solução do seu mistério e ali estava, agora bem à vista, o braço a que faltava aquela mão.

Ao seu olhar interrogador, respondeu a dona da loja:

– Deve ter sido a mulher da limpeza. Desapareceu sem deixar rasto.

Este pequeno conto não acaba aqui…
 
Fica à espera da tua colaboração… escreve o teu final e coloca-o como comentário ou envia-o para o meu endereço de correio electrónico – jafroque@gmail.com que eu próprio o colocarei.
 
Depois eu próprio revelarei o meu final.
 

Os finais dos alunos

Vou agora tentar transcrever os finais da história que os alunos do oitavo ano da ESGN escreveram … Nem todos podem ser aqui colocados, também pela falta de espaço, mas sobretudo porque alguns alunos têm finais um bocado complicados. Andam a ver muita televisão. Muitos dos textos revelam imensa imaginação e quase todos os alunos se aplicaram. Valeu a pena a experiência e terei gosto em repeti-la noutras oportunidades.

O meu final está no fim da página.

Deixo-te com alguns dos textos, dos muitos de que gostei .

Final 1

Depois de tudo isto, Fonseca fica com a ideia de que a mão era da empregada da limpeza. Num seguinte instante, examina o braço debaixo do manto azul. Não consegue ver bem porque chega a empregada e, por incrível que pareça, não tinha o braço. Ele pergunta à empregada se sabe alguma coisa do braço e da mão. Ela responde que o braço e a mão são dela. Fonseca fica pasmado e pergunta:

– Então o que aconteceu ao seu braço?

– Perdi-o…

– Hãã?

– Quando eu era mais nova parti o braço e tiveram que cortá-lo. Agora uso uma espécie de prótese no braço e no outro dia, quando fui ao caixote do lixo, o caixote fechou e a mão ficou lá dentro, sem eu dar por nada… só quando cá cheguei é que reparei que me faltava a mão e deixei aqui o meu braço debaixo desse manto azul, porque só o braço sem a mão não me faz falta, e fui à procura da mão.

Afinal não era nada de mais, não era nenhum crime nem nada parecido.

André Silva, 8.º D

Final 2

Fonseca suspeitava de que a senhora lhe estivesse a dizer a verdade.

Pensou um pouco, pois não sabia se deveria acreditar ou não no que lhe fora dito. Por um lado, sabia que o que a mulher lhe tinha dito poderia ser verdade mas, por outro lado, a empregada podia ser realmente trapalhona ao ponto de nem se ter apercebido!

Sabia que tinha de agir e continuou o diálogo:

– Essa sua empregada deve ser um pouco distraída.

– Sim, pois, bem… um pouco… – respondeu a mulher, um pouco aflita.

– Bem, olhe as horas! Tenho de ir! Passo por cá depois por causa das luvas… hum… continuação de um bom-dia, minha senhora.

Apressado, Fonseca saiu da loja a correr. Decidiu fazer uma visita à lixeira municipal, apesar de não lhe agradar muito a ideia. Dirigiu-se o mais rapidamente possível para a lixeira. Quando lá chegou, colocou uma máscara devido ao cheiro e pôs mãos à obra. A sua tarefa era a de encontrar mais pistas, como outras partes de corpos que poderiam ter ido juntamente com aquela enigmática mão.

Junto ao monte de lixo mais alto encontrava-se um objecto rosado. Só mesmo pela curiosidade, Fonseca dirigiu-se até ele. Era um pé. Fonseca, muito entusiasmado, pegou num saco de provas e colocou lá o pé.

Ainda procurou por mais pistas, mas foi escusado. Fonseca sabia que iniciava agora uma nova fase da investigação.

Dirigiu-se para o laboratório (mais propriamente a sua garagem) e começou a fazer o estudo à prova encontrada. Observou que o pé e a mão eram da mesma cor, feitos do mesmo material e tinham o mesmo cheiro a lixo. Análise concluída: o pé e a mão pertenciam ao mesmo corpo. Mas agora o problema era encontrar o resto do corpo.

Chegou a noite, mas Fonseca, sempre com o entusiasmo da investigação, apenas adormeceu já muito depois da meia-noite.

Rapidamente o sol nasceu e Fonseca preparava-se para mais um dia de investigações.

Nesse dia Fonseca pensava em ir investigar num lago onde tinha as saídas dos esgotos. Assim o fez. No fim do almoço foi ter ao tal lago.

Mal chegou, avistou algo parecido com uma caixa a boiar. Era o tronco do corpo. Mas Fonseca pensou para si:

– Mas como irei eu buscar o tronco? Não tenho barco e não sei nadar!

Fonseca estava mesmo aborrecido, mas rapidamente se pôs a fazer engenhocas. Por mais inacreditável que fosse, Fonseca conseguiu montar uma jangada. Alcançou o corpo, flutuando com a sua jangada e, no momento exacto em que tocou no tronco, quatro dos seus antigos colegas da polícia e o seu antigo chefe saltaram de trás dos arbustos:

– Foste apanhado! – gritaram os cinco, a rir às gargalhadas.

– Então isto foi tudo um teste? Que ideia tão original! – pensou Fonseca, enquanto se sentia orgulhoso por ter descoberto o mistério.

Acabou assim a aventura de Fonseca, mas estava certo de uma coisa: Estava pronto para outra.

Inês Santos, 8.º C

O meu final

Aquela resposta encaixava bem em tudo o que Fonseca já previra. Tinha conseguido resolver com sucesso o seu primeiro caso como detective particular.

Contou à dona da loja, que ficou a saber que se chamava Arminda, todos os passos que dera na solução daquele caso e notava a admiração a crescer nela.

Fonseca foi a casa e voltou passado pouco tempo. Arminda, agradecida, queria oferecer-lhe um par de luvas para a esposa, perguntando-lhe de quais tinha gostado mais, das que tinha pedido para ver. Mas Fonseca lá lhe explicou que vivia sozinho e que tinha pedido para ver as luvas só para lhe dar tempo de confirmar a sua suspeita.

Desta vez, havia um brilhozinho nos olhos de Arminda quando convidou Fonseca para jantar. Fonseca dizia que não era preciso mas Arminda insistiu.

Ainda faltavam alguns minutos para as dezanove horas quando fecharam a loja. Também não havia nenhum cliente…

Quando passaram frente à montra iluminada, olharam ambos, com ar feliz, o manequim que, agora, tinha de novo… as duas mãos.

Post-scriptum ou epílogo

O narrador desta história não consegue ver o futuro mas não se admiraria nada que esta aventura, que começou com uma mão no lixo, ainda viesse a acabar de mãos dadas, ao pôr do sol (hora a que tudo começou) dum qualquer dia e lugar.

De qualquer modo, Arminda já não é propriamente uma menina a cujos pais Fonseca tenha de pedir:

– Dá-me a mão da sua filha?

Espero que te tenha agradado. Podes comentar.



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