Lugares e Palavras de Natal

A mais bela prenda

De forma inesperada, recebi um convite para enviar um texto para uma coletânea de Natal, organizada pela Lugar da Palavra Editora. Apesar de um pouco renitente, acabei por enviar um texto escrito em 2009 e que já conheces pois faz parte destas infantilidades desde 2014, embora numa versão mais curta (mesmo a versão agora publicada teve que levar alguns cortes para caber nos critérios definidos pela editora).

A primeira reação dos editores foi muito simpática e venceu as minhas resistências. Acabou selecionado e publicado. Neste sábado, no Porto, decorreu a apresentação do livro. Gostei da experiência e, “se a tanto me ajudar o engenho e a arte”, como diria o poeta, no próximo ano voltarei a participar.

Para ler o meu texto podes adquirir a coletânea à editora, ou ler aqui.

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Uma história de Natal

A mais bela prenda que o menino recebeu

– Uma história de Natal

Aquela era uma noite muito fria. A pequena aranha estava encolhida numa trave que suportava o telhado esburacado do velho barracão que servia de estábulo a uma vaca.

Nessa noite havia mais três ocupantes – um casal e o burro que transportara a mulher.

Pouco depois a mulher deu à luz. Dar à luz era mesmo a expressão mais adequada pois, no exato momento em que o menino nascia, no céu surgia uma luz nova: uma estrela mais brilhante do que as outras que cintilavam na noite.

Havia também uma música – parecia o som de muitas flautas – que a aranha nunca tinha ouvido. Seria o vento a assobiar entre os ramos das árvores e os buracos do telhado?

Os pastores das redondezas vieram ver o que havia naquele estábulo e merecia estes sinais do céu. Enternecidos com o que viam, deixaram algumas prendas: mantas feitas com a lã das suas ovelhas, que eles próprios usavam para se protegerem do frio da noite. A aranha teve pena de nada ter para oferecer.

Na completa escuridão, a chuva caía por um buraco e batia nas traves, molhando tudo.

A aranha podia abrigar-se noutro local. Era mesmo o que ia fazer quando reparou que quem estava lá em baixo não tinha como escapar aos salpicos. Tinha descoberto a prenda que podia dar ao menino…

Escolheu o local em que o telhado estava mais roto, por onde entravam grossos pingos de chuva e o vento frio assobiava. A cortina de fios ia crescendo e começava a cumprir o seu papel…

A aranha continuava na sombra a trabalhar, com a mestria das suas oito patas, os finos fios que prendia ora no telhado ora nas traves mais distantes. Era um trabalho paciente, demorado.

O menino pareceu perceber o esforço que a aranha fazia para lhes dar mais conforto e levantou o bracito num aceno de agradecimento.

Nesse momento, pela abertura do telhado, entrou a luz da nova estrela que surgira no céu. Uma luz fraca, mas que fez brilhar os fios que a aranha ia tecendo numa linda teia.

José e Maria, extenuados pela longa viagem e pela infrutífera procura de alojamento condigno na cidade de Belém, já dormiam. Só o menino, o burrito e a vaca puderam assistir, deslumbrados, à magnífica obra de arte feita pela inspirada aranha.

A aranha trabalhara quase dois dias sem parar, mas o sorriso do menino tinha sido recompensa suficiente para o seu esforço.

Passados uns dias, chegaram a Belém uns estranhos viajantes, guiados pelos sinais dos céus. Os visitantes eram homens sábios e ricos que viram na nova estrela a indicação de que nascera o Messias esperado, e dirigiram-se ao velho estábulo – um local inesperado para o nascimento de tão importante personagem.

Deixando as numerosas comitivas que os acompanhavam, os reis desceram dos seus enfeitados camelos e cavalos e entraram no estábulo.

Os reis magos traziam belos presentes: ouro, incenso, mirra… e exibiam-nos. A pobre aranha nem sabia o que era aquilo, mas percebia que era algo valioso. Estava contente por aquele menino receber tão ricas prendas, de homens tão poderosos e tão sábios que vieram de tão longe guiados pela estrela, mas, ao mesmo tempo, um pouco triste por não ter mais para oferecer ao menino que a sua teia feita com aqueles fios sem qualquer valor.

Também percebia que os reis ofereciam aqueles presentes para mostrar a sua própria importância… e ela era só uma pequena aranha.

O menino era também pequenino, mas muito, muito especial. Parecendo perceber o que ia no coração daqueles reis, o que queriam mostrar com aquelas prendas; entendendo o que a aranha sentia, levantou o bracito, a apontar o alto. Os olhos de todos levantaram-se ao mesmo tempo que as nuvens se abriam e a luz entrou, mais viva do que antes, pelo teto esburacado. Ouviu-se um coro de espanto ao verem a teia toda iluminada… pequenas gotas de água refletiam a luz… um espetáculo nunca visto.

– Nem a mais prendada bordadeira do meu reino era capaz de fazer um bordado tão belo. – disse um dos reis.

– Nem a melhor tecedeira faria tão fino tecido. – acrescentou outro.

– Nem o melhor dos meus ourives faria tão valiosa filigrana. – completou o terceiro.

Após uns momentos de admiração, os três sábios, em coro, concluíram:

– Este menino é verdadeiramente filho de Deus!

Os reis magos foram embora, mas nunca mais esqueceram tudo o que viram…

 

Desde esse tempo, os amigos de Jesus jamais deixaram de iluminar o Natal com imensas luzes, longos fios entrançados cheios de pequenas lâmpadas, iluminações com muitas formas e cores, mas… nenhuma iguala, em beleza e graciosidade, aquela teia de aranha.

Teia 2

Quando em 2009 pensei em colocar algo no blogue pelo Natal apercebi-me que nunca tinha escrito uma história de Natal. Foi dessa constatação que nasceu o conto que agora reduzi significativamente para ser publicado no Jornal Timoneiro. Foi apresentada, também este ano, na atividade “Chá de Letras” subordinada ao tema “Natal”, com alunos do sétimo ano e respetivos encarregados de educação. A nova dimensão do conto tornou viável ser publicado também neste blogue.

Em tempos, sonhei publicar um livro, mas sem ilustrações a condizer não fazia sentido. Quem sabe um dia a versão mais longa venha a ser publicada.

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