Uma surpresa agradável em mp3

Um dos textos que tem tido melhor aceitação junto dos leitores do blogue “Infantilidades” é “Um susto de história com uma bruxa feia e um gato preto”. Já foi publicado por diversos sites interessantes, foi levado ao palco, em projetos com diferente qualidade, foi lido em escolas e associações culturais, …

Encontrei-o agora na Internet sob formato audio mp3, com linda pronúncia brasileira, num projeto muito meritório: «O projeto Purpurinar visa difundir o conhecimento a deficientes visuais através de arquivos de áudios gravados por voluntários ou “ledores virtuais”.»

Neste caso, a  voluntária Kamila Vieira da Silva adicionou-o à lista de literatura infantil do Projeto Purpuinar.

Gostei de ouvir a história na voz da Kamila e sensibilizado por a fazerem chegar a pessoas que de outra forma não poderiam conhecê-la.

Obrigado por darem brilho à minha história com as vossas “purpurinas”.

Quem puder ler, pode encontrar o texto no meu blogue em: Um susto de história com uma bruxa feia e um gato preto

Se preferirem fazer o dowload do mp3, encontram-no em inúmeros sites especializados, como aquiaqui ou aqui

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Crepúsculo

Crepúsculo
 

Todos os fins de tarde, Lúcia ia até a esplanada junto ao farol e ficava a ler até quase serem horas de o sol se esconder no horizonte. Depois levantava-se, caminhava até à Meia-laranja, vivia o pôr-do-sol e permanecia ali todo o tempo que durava o crepúsculo, vendo as cores quentes do horizonte a diluírem-se no azul gradualmente mais frio e mais escuro. Regressava a casa, com uma lágrima ao canto do olho, já a escuridão tomara conta do céu.

Era um hábito que mantinha religiosamente. Ao início ainda lhe parecia sentir na sua, a mão de Fernando, mas com o passar do tempo e o avolumar da solidão, o crepúsculo cada vez se tornava um momento mais penoso, por força das recordações contraditórias.

Felizmente a vida de Fernando não tivera um crepúsculo. Fora uma luz que se apagara bruscamente, traído pelo coração que sempre estivera disponível para a amar. Lúcia não sofrera ao vê-lo sofrer. Sofria agora a sua ausência.

Quantas vezes, desde que se conheceram, naquele local e àquela hora que dispensa o relógio, o pôr-do-sol e o crepúsculo que lhe sucedia tinham sido ocasião para celebrar a vida. Quantas revelações, quantas decisões felizes, tinham tido por cenário aquele mesmo local e aquela hora mágica. Foi também ali que Fernando a pediu em casamento e ela prontamente lhe disse que sim; ali decidiram que ficariam para sempre a viver na Barra; ali ele ficou a saber que ia ser pai; …

Os anos passaram. Viram os filhos crescer. Viram-nos partir, primeiro Tomé e depois Cristina, para construírem a vida longe dos pais.

Quantas vezes Lúcia e Fernando voltaram àquele lugar, na transição do dia para a noite, para se deixarem encantar pela beleza sempre renovada daqueles instantes. O marulhar das ondas e os gritos das gaivotas que se estendiam pelo areal constituíam a banda sonora desses momentos de felicidade.

Lúcia nasceu longe dali, num vale encaixado entre montanhas, que o sol iluminava apenas quando já ia alto no céu e o ocaso não tinha por companhia aquelas cores que a viriam a fascinar.

Foi nas primeiras férias na praia que se apaixonou pelo pôr-do-sol sobre o mar, pelo crepúsculo.

Havia sempre gente que passeava por ali, mas Lúcia reparou num jovem, apaixonado como ela por aquele fim da tarde e que, tal como ela, escolhera a Meia‑laranja para o admirar. Olhavam inicialmente na mesma direção, mas acabaram por olhar também um para o outro. As férias terminaram com eles de mãos dadas, enamorados um do outro e com uma paixão comum por aquele espetáculo de luz.

Lúcia levara, como sempre, um livro, mas estava incapaz de ler. O tom dramático da filha, deixara-a preocupada. Perdera o emprego e não estava a conseguir outro que lhe permitisse sobreviver, continuar a pagar a renda de casa, … Viria acolher-se na casa da mãe, se ela não se importasse.

Lúcia nem pensou duas vezes. Claro que a filha e o neto eram era bem‑vindos.

Enquanto caminhava rumo à Meia-laranja, Lúcia ia tensa. Na memória tinha algumas discussões antigas com a filha e temia que o convívio forçado, sobretudo numa fase difícil da vida de Cristina – o divórcio primeiro, o desemprego depois – gerasse novas fricções.

Sentou-se no muro da meia-laranja e olhou o céu. A obra de arte que tinha na sua frente, com cores inimitáveis, e em suave mutação, teve o dom de a acalmar. Pensou que, pelo menos, não estaria mais sozinha. Aprenderiam a viver juntas.

Cristina depressa encontrou um emprego. Era mal pago e tinha um horário que seria impossível de aceitar se não contasse com a ajuda da mãe para ir buscar o neto à escola e dar-lhe o jantar.

Lúcia ficou maravilhada com a inteligência e com a sensibilidade do rapazinho.

Ali estava ela, na esplanada do costume, à hora do costume. Diferente era o livro que levava e… a companhia. Leu-lhe uma história infantil.

Depois o passeio até à Meia Laranja. Lúcia e Fernando, de mão dada.

Ficaram em silêncio olhando o pôr-do-sol. Lúcia recordou-se das primeiras vezes que o apreciara. Nos olhos fixos e maravilhados do neto reviu os do seu amado.

– Ó avó, sabes que o teu nome significa luz? – disse ele com um brilho dourado nos olhos azuis e entusiasmo na voz.

– Sim, sei. E tu, sabes que tens o nome de um grande homem?

– Sim, o do avô Fernando.

Fernando olhava, deslumbrado, as cores do crepúsculo que se iam desvanecendo.

Lúcia reencontrara, na beleza daquele ocaso e na companhia do neto, a paz de espírito de que precisava para não mais sentir a solidão, a escuridão que se segue a cada crepúsculo.

 

imagem colhida em http://www.facebook.com/photo.php?fbid=3518316407738&set=o.159495297397563&type=1&relevant_count=1

 

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No “Dia da Mãe”

Mãe

.

Tu não dás muito…

Dás-te toda,

De cada vez.

.

Vela que arde

De fio a pavio,

Até ao fim.

.

Nunca perdes a chama

Mas apagas-te

Para que todos brilhem.

.

Dedico este poema a todas as mães, mas especialmente a uma…

Não estranhem o tema. É que hoje, para mim, é o Dia da Mãe. Sim! É o aniversário da minha mãe.

O poema inicialmente não tinha este título… escrevi-o a pensar numa outra pessoa, também  muito especial para mim… acho que se vai rever nele.

Imagem de http: //osmorcegos.blogspot.pt 

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Só vendo, como S. Tomé

A mamã diz-me para estar sossegada, mas não consigo… é a primeira vez que vou voar. Quer-me sentada, junto dela. Isso faço eu, todos os dias. Ela está é nervosa, desde a chegada ao aeroporto, cheia de medo. Eu cá, não… Sou Pardal.

Nesta janela cabem tantos aviões… Em qual deles irei? Aquele branco e vermelho é tão lindo. São todos. Quando disser às minhas amigas que já andei de avião, vão ficar cheias de inveja. Gostava de levar comigo a Cláudia e a Patrícia, os meninos todos do terceiro ano.

Finalmente, conhecerei o meu avô Salustino Pardal e comerei as lagostas que ele pesca. Na carta que me escreveu, diz que são as melhores do mundo. Vou visitar a terra onde os meus pais nasceram e que é também, mas só um nadinha, o meu país: S. Tomé.

Mas eu sou, um pouco, como S. Tomé: só vendo é que acredito. Prometiam há tanto tempo… Será que é mesmo desta? Só quando estiver sentada no avião, quando apertar o cinto de segurança e o avião levantar voo é que acredito que vou mesmo voar.

Vai ser bué da fixe. Melhor do que andar na roda gigante da Feira de Março, que foi a coisa mais excitante que fiz… até hoje.

imagem retirada de http://mil-hafre.blogspot.com/2009/12/destino-mundo-lusofono.html


Este pequenino texto resultou de um exercício feito num trabalho de casa (no Curso Livre de Escrita Criativa), sobre o ponto de vista do narrador, neste caso na primeira pessoa: uma criança excitada com a perspectiva de voar pela primeira vez.

Tínhamos um número limitado de linhas… não nos podíamos esticar muito.

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Um susto de história com uma bruxa feia e um gato preto

A noite estava completamente escura mas não chovia… A temperatura até estava quente para a época, mas o gato preto estava enroscado perto do lume. Dormitava. De vez em quando abria um olho a controlar os movimentos da dona.

A fraca luz, na cozinha de paredes escurecidas pelo fumo, não deixava ver grande coisa, mas os gestos – à custa de tantas repetições – já quase podiam ser feitos de olhos fechados.

A velhinha, completamente vestida de negro, entoava a sua cantilena, enquanto mexia o conteúdo da panela enegrecida pelo fumo da lenha.

Estás a imaginar a cena, não estás? O que tu não imaginarias – nem ela, provavelmente – é que, nas redondezas, uma figura baixota, atarracada, mas com um chapéu enorme que parecia fazê-la mais alta e roupas negras que praticamente a tornavam invisível no negro da noite se encaminhava para sua casa e estava, aliás, já ali bem perto.

O chapéu em cone, de abas largas e de cor também negra; as roupas que vestia e sobretudo aquela cara, em que não faltava um nariz disforme, onde saltava à vista uma verruga – Sim! Tinha uma enorme verruga no nariz – a vassoura que trazia numa das mãos e arrastava pelo chão… não havia engano possível… quem se aproximava, a coberto da noite, era uma figura verdadeiramente sinistra.

Dentro de casa, calmamente, a velhinha lançava na panela uma pequena quantidade de algo que tirara de um dos frascos alinhados no aparador perto de si – uma medida sabiamente afinada pela experiência de muitos anos.

A sobrepor-se aos fracos sons que resultavam dos gestos tantas vezes repetidos e à sua voz ainda melodiosa, ouviram-se cinco fortes pancadas na porta.

O gato abriu os olhos, levantou-se, eriçou os pelos, arqueou a coluna e saltou na direcção donde viera aquele barulho que o incomodara no seu sono. A velhinha, sobressaltada, calou-se e parou de mexer a panela negra de onde saíam abundantes vapores e, penosamente, dirigiu-se à porta.

As mãos da simpática velhinha tremiam… e não era de frio.

Como já te contei, a temperatura até estava agradável…

O quê! Pensavas que era uma bruxa? Embora pudesse parecer, não! Não era uma bruxa! Era mesmo apenas uma velhinha que, com mão trémula, abriu a porta devagar…

Olhou a bruxa nos olhos – olhos que mal se viam na carantonha horrível…

Esta sim, era uma bruxa! Aquela cara feiosa, com a enorme verruga no nariz – também ele bastante avantajado e adunco – e um ar malévolo era, sem ponta de dúvida, a de alguém que queria assustar, que queria que ninguém tivesse dúvidas de que estava na presença de uma bruxa má.

A velhinha, com uma voz onde o susto parecia genuíno, perguntou:

– Porque é que tens uma cara tão feia?

– É para te pregar um susto! Um susto tão, tão grande…

E a bruxa esticava os braços, num gesto sugestivo, a ameaçar a velhinha de horrores enormes.

– Só escapas se me deres já… aquilo que já sabias que eu hoje… cá viria procurar!

E a bruxa entrou pela casa com o ar decidido de quem sabe bem o que quer. Já dentro da casa a sinistra figura pôs a mão à cara horrenda e, determinada, puxou pelo nariz.

Com a outra mão, pegou em algo que os dedos trémulos da velhinha seguravam… e levou à boca. Depois, com a beiça lambuzada do chupa-chupa, deu um beijo doce à avó.

A vassoura, a máscara e o chapéu do disfarce do dia das bruxas lá ficaram, atirados para um canto.

Entretanto a bruxinha notou:

– Cheira bem! Estavas a cozinhar?

– Estou a fazer sopa. Está quase pronta. Queres um pratinho?

– Claro! Isso pergunta-se? A sopa da avó é a melhor do mundo. O resto do chupa fica para depois…

E a menina deu a mão à avó e, seguidas pelo pachorrento gato preto, dirigiram-se à cozinha.

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A minha avó

Imagem retirada do blogue: http://positivopensamento.blogspot.com/ que provavelmente a retirou de outro lugar...

“O tempo passa a voar”,
ouvi alguém a dizer.
Deitei-me de papo ao ar,
sempre à espera de o ver.

Vi passar alguns pardais,
andorinhas e gaivotas
e lá longe, muito longe,
aviões nas suas rotas;

Abelhas e borboletas;
folhas que o vento levou;
o papagaio do vizinho
preso ao fio que lhe atou;

aquela nuvem no céu
que parece um animal…
Já vi passar tanta coisa,
mas do tempo nem sinal!

Perguntei à minha mãe
como é que o podia ver.
Disse que estava ocupada,
não tinha tempo a perder;

que invejava a minha vida:
tempo para dar e vender.
“Isso está bom é para ti,
não tens nada que fazer …”

Se não sei o que é o tempo
como é que o posso perder?
Se ninguém me ensinar
como é que eu hei-de aprender?

Vou perguntar à avó,
que ela deve saber!
Quem já viveu tantos anos
é que me há-de valer…

Contou-me tantas histórias
que me senti um sortudo:
é sempre tão bom ouvi-la…
A minha avó sabe tudo!~

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