Antologia de Textos premiados no PMJML 2017

Como aqui tinha dado notícia, o meu conto com o título “Apeteces-me tanto” foi distinguido na segunda edição do Prêmio Maria José Maldonado de Literatura e agora publicado numa antologia dos textos premiados nas diferentes categorias a concurso, nas modalidades de conto e poesia.

A antologia está disponível gratuitamente em versão eletrónica na pagina da Academia Volta-redondense de Letras em https://www.avl.org.br/livros ou aqui – Antologia de Textos premiados no PMJML 2017

Prémio Maria José Maldonado 2017

Ainda não li toda a Antologia, mas encontrei já vários textos muito interessantes. A divulgação de textos, por esta via, pode atingir um número significativo de leitores, no Brasil e em Portugal.

Clicando nas imagens abaixo, poderás aceder a artigos sobre alguns dos meus textos publicados em coletâneas, todas selecionados em concursos, à exceção de “enCONTrOS”.

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enCONTrOS  O riocorria calmo Egas Moniz  Casa de Espanha

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Apeteces-me tanto

AVL

Participei, em fevereiro, no concurso organizado pela Academia Volta-redondense de Letras, Rio de Janeiro, Brasil. O júri do concurso tinha que escolher 15 entre centenas de participantes em cada categoria. Recebi a comunicação de que tinha sido um dos autores premiados na categoria de conto.

“A Comissão Organizadora do PMJML 2017 tem o prazer de divulgar os 15 (quinze) autores premiados da Categoria Conto, após intenso trabalho da Comissão Avaliadora da categoria. A diversidade da origem dos participantes na Categoria Poesia foi também observada na Categoria Conto. A antologia contará com contistas de 4 das 5 regiões do país e três autores de Portugal, pais de origem de nossa homenageada, a poetisa Maria José Maldonado.

Autores Premiados do PMJML 2017 (Conto) 

Adnelson Borges de Campos – São Mateus do Sul – PR
Célia Chamiça – Odivelas – Portugal
Coracy Teixeira Bessa – Salvador – BA
Daniele Garcia Pires – São Paulo – SP
Francisco Ferreira – Conceição do Mato Dentro – MG
Gabriel Costa Abreu Dantas – Fortaleza – CE
Genisson Angelo Guimarães – São Paulo – SP
Gustavo Fontes Rodrigues – São Paulo – SP
João Alberto Roque – Gafanha da Nazaré – Portugal
João Paulo Lopes de Meira Hergesel – Alumínio – SP
João Pablo Trabico de Oliveira – Salvador – BA
Luciana Fátima da Silva – São Paulo – SP
Luísa Maria Ferreira Pinto de Lima – Santa Maria da Feira – Portugal
Sandra Maria Godinho Gonçalves – Manaus – AM
Vitor Luiz Bento Leite – Rio de Janeiro – RJ”

O conto que enviei, com o título “Apeteces-me tanto” será então publicado numa coletânea do concurso. Trata-se de uma história em que o protagonista é uma criança e foi escrito em Outubro de 2015.

É sempre um estímulo receber estas distinções e divulgar os meus textos. Quando ocorrer a publicação darei aqui notícia e divulgarei o texto.

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O riocorria calmo Uma história… a feijões ou um fundo de verdade num inverosímil conto de fadas lugares-e-palavras-de-natal-2 MV Egas Moniz mar2

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Finalmente o sol

O facebook lembrou-me desta história escrita há três anos para um grupo de que fazia parte na altura. Havia uma condição que nem sempre era fácil de cumprir: os textos tinham que ter exatamente cem palavras (Drabbles).
Achei que ficava bem no blogue, onde já estão outras dentro da mesma lógica.

Para ler bem o texto, clica na imagem para a ampliar.

Finalmente o sol

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Egas Moniz mar2 O riocorria calmo Olho 3.png Uma história… a feijões ou um fundo de verdade num inverosímil conto de fadas lugares-e-palavras-de-natal-2

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Encontros – coletânea de escrita criativa

Deixem-me hoje falar-vos de um novo livro, com o título “Encontros”, resultado dos trabalhos de um grupo de amigos – A tertúlia Et Quoi. Tem cerca de 270 páginas, com trinta por minha conta.

Em breve, teremos novidades sobre os nossos “Encontros”. A coletânea que andamos a cozinhar há muito está quase no ponto. Em breve será servida aos apreciadores.

Para já deixo-vos com a capa, elaborada pelo Pedro Fontoura sobre uma foto da Olinda Morgado, dois talentosos e multifacetados elementos da nossa tertúlia.

encontros

Quando chegar da gráfica, logos vos enviarei um convite para o lançamento.

No artigo anterior referi a ida ao lançamento da coletânea Lugares e Palavras de Natal. Um fim de tarde agradável. Mas o dia foi todo ele dedicado às palavras e algo mais.

O sábado já tinha começado bem, no que diz respeito ao “coração, cabeça e estômago”. A começar uma agradável moqueca de peixe, confecionada pelo amigo Carlos Corga. Depois das deliciosas sobremesas, passámos aos contos, igualmente deliciosos. Eu contribuí com Três peixes gordos. O desafio era escrever um conto começando pelo início de um conto alheio. A minha escolha recaiu no início do conto Um peixe gordo de Branquinho da Fonseca, do seu livro Bandeira Preta.

Quando acabou a tertúlia literária (e gastronómica) rumei à estação e apanhei o comboio para o Porto, numa decisão de última hora, mas gostei de ter ido participar no lançamento de Lugares e Palavras de Natal.

Gostei ainda da económica e calma viagem de comboio, acompanhado da leitura: na ida de Bandeira Preta e, no regresso, dos contos de Natal da coletânea de que dei conta aqui.

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lugares-e-palavras-de-natal-2 haik Olho 3.png Prisma Uma história… a feijões ou um fundo de verdade num inverosímil conto de fadas O riocorria calmo

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Lugares e Palavras de Natal

A mais bela prenda

De forma inesperada, recebi um convite para enviar um texto para uma coletânea de Natal, organizada pela Lugar da Palavra Editora. Apesar de um pouco renitente, acabei por enviar um texto escrito em 2009 e que já conheces pois faz parte destas infantilidades desde 2014, embora numa versão mais curta (mesmo a versão agora publicada teve que levar alguns cortes para caber nos critérios definidos pela editora).

A primeira reação dos editores foi muito simpática e venceu as minhas resistências. Acabou selecionado e publicado. Neste sábado, no Porto, decorreu a apresentação do livro. Gostei da experiência e, “se a tanto me ajudar o engenho e a arte”, como diria o poeta, no próximo ano voltarei a participar.

Para ler o meu texto podes adquirir a coletânea à editora, ou ler aqui.

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Prisma   Receitada pelo médico Prémio Literário Hernâni Cidade Condeixa 2

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Uma surpresa agradável em mp3

Um dos textos que tem tido melhor aceitação junto dos leitores do blogue “Infantilidades” é “Um susto de história com uma bruxa feia e um gato preto”. Já foi publicado por diversos sites interessantes, foi levado ao palco, em projetos com diferente qualidade, foi lido em escolas e associações culturais, …

Encontrei-o agora na Internet sob formato audio mp3, com linda pronúncia brasileira, num projeto muito meritório: «O projeto Purpurinar visa difundir o conhecimento a deficientes visuais através de arquivos de áudios gravados por voluntários ou “ledores virtuais”.»

Neste caso, a  voluntária Kamila Vieira da Silva adicionou-o à lista de literatura infantil do Projeto Purpuinar.

Gostei de ouvir a história na voz da Kamila e sensibilizado por a fazerem chegar a pessoas que de outra forma não poderiam conhecê-la.

Obrigado por darem brilho à minha história com as vossas “purpurinas”.

Quem puder ler, pode encontrar o texto no meu blogue em: Um susto de história com uma bruxa feia e um gato preto

Se preferirem fazer o dowload do mp3, encontram-no em inúmeros sites especializados, como aquiaqui ou aqui

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Uma história… a feijões ou um fundo de verdade num inverosímil conto de fadas  O riocorria calmo  A Primavera  MV    Apelo aos amigos

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Uma história de Natal

A mais bela prenda que o menino recebeu

– Uma história de Natal

Aquela era uma noite muito fria. A pequena aranha estava encolhida numa trave que suportava o telhado esburacado do velho barracão que servia de estábulo a uma vaca.

Nessa noite havia mais três ocupantes – um casal e o burro que transportara a mulher.

Pouco depois a mulher deu à luz. Dar à luz era mesmo a expressão mais adequada pois, no exato momento em que o menino nascia, no céu surgia uma luz nova: uma estrela mais brilhante do que as outras que cintilavam na noite.

Havia também uma música – parecia o som de muitas flautas – que a aranha nunca tinha ouvido. Seria o vento a assobiar entre os ramos das árvores e os buracos do telhado?

Os pastores das redondezas vieram ver o que havia naquele estábulo e merecia estes sinais do céu. Enternecidos com o que viam, deixaram algumas prendas: mantas feitas com a lã das suas ovelhas, que eles próprios usavam para se protegerem do frio da noite. A aranha teve pena de nada ter para oferecer.

Na completa escuridão, a chuva caía por um buraco e batia nas traves, molhando tudo.

A aranha podia abrigar-se noutro local. Era mesmo o que ia fazer quando reparou que quem estava lá em baixo não tinha como escapar aos salpicos. Tinha descoberto a prenda que podia dar ao menino…

Escolheu o local em que o telhado estava mais roto, por onde entravam grossos pingos de chuva e o vento frio assobiava. A cortina de fios ia crescendo e começava a cumprir o seu papel…

A aranha continuava na sombra a trabalhar, com a mestria das suas oito patas, os finos fios que prendia ora no telhado ora nas traves mais distantes. Era um trabalho paciente, demorado.

O menino pareceu perceber o esforço que a aranha fazia para lhes dar mais conforto e levantou o bracito num aceno de agradecimento.

Nesse momento, pela abertura do telhado, entrou a luz da nova estrela que surgira no céu. Uma luz fraca, mas que fez brilhar os fios que a aranha ia tecendo numa linda teia.

José e Maria, extenuados pela longa viagem e pela infrutífera procura de alojamento condigno na cidade de Belém, já dormiam. Só o menino, o burrito e a vaca puderam assistir, deslumbrados, à magnífica obra de arte feita pela inspirada aranha.

A aranha trabalhara quase dois dias sem parar, mas o sorriso do menino tinha sido recompensa suficiente para o seu esforço.

Passados uns dias, chegaram a Belém uns estranhos viajantes, guiados pelos sinais dos céus. Os visitantes eram homens sábios e ricos que viram na nova estrela a indicação de que nascera o Messias esperado, e dirigiram-se ao velho estábulo – um local inesperado para o nascimento de tão importante personagem.

Deixando as numerosas comitivas que os acompanhavam, os reis desceram dos seus enfeitados camelos e cavalos e entraram no estábulo.

Os reis magos traziam belos presentes: ouro, incenso, mirra… e exibiam-nos. A pobre aranha nem sabia o que era aquilo, mas percebia que era algo valioso. Estava contente por aquele menino receber tão ricas prendas, de homens tão poderosos e tão sábios que vieram de tão longe guiados pela estrela, mas, ao mesmo tempo, um pouco triste por não ter mais para oferecer ao menino que a sua teia feita com aqueles fios sem qualquer valor.

Também percebia que os reis ofereciam aqueles presentes para mostrar a sua própria importância… e ela era só uma pequena aranha.

O menino era também pequenino, mas muito, muito especial. Parecendo perceber o que ia no coração daqueles reis, o que queriam mostrar com aquelas prendas; entendendo o que a aranha sentia, levantou o bracito, a apontar o alto. Os olhos de todos levantaram-se ao mesmo tempo que as nuvens se abriam e a luz entrou, mais viva do que antes, pelo teto esburacado. Ouviu-se um coro de espanto ao verem a teia toda iluminada… pequenas gotas de água refletiam a luz… um espetáculo nunca visto.

– Nem a mais prendada bordadeira do meu reino era capaz de fazer um bordado tão belo. – disse um dos reis.

– Nem a melhor tecedeira faria tão fino tecido. – acrescentou outro.

– Nem o melhor dos meus ourives faria tão valiosa filigrana. – completou o terceiro.

Após uns momentos de admiração, os três sábios, em coro, concluíram:

– Este menino é verdadeiramente filho de Deus!

Os reis magos foram embora, mas nunca mais esqueceram tudo o que viram…

 

Desde esse tempo, os amigos de Jesus jamais deixaram de iluminar o Natal com imensas luzes, longos fios entrançados cheios de pequenas lâmpadas, iluminações com muitas formas e cores, mas… nenhuma iguala, em beleza e graciosidade, aquela teia de aranha.

Teia 2

Quando em 2009 pensei em colocar algo no blogue pelo Natal apercebi-me que nunca tinha escrito uma história de Natal. Foi dessa constatação que nasceu o conto que agora reduzi significativamente para ser publicado no Jornal Timoneiro. Foi apresentada, também este ano, na atividade “Chá de Letras” subordinada ao tema “Natal”, com alunos do sétimo ano e respetivos encarregados de educação. A nova dimensão do conto tornou viável ser publicado também neste blogue.

Em tempos, sonhei publicar um livro, mas sem ilustrações a condizer não fazia sentido. Quem sabe um dia a versão mais longa venha a ser publicada.

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Crepúsculo

Crepúsculo
 

Todos os fins de tarde, Lúcia ia até a esplanada junto ao farol e ficava a ler até quase serem horas de o sol se esconder no horizonte. Depois levantava-se, caminhava até à Meia-laranja, vivia o pôr-do-sol e permanecia ali todo o tempo que durava o crepúsculo, vendo as cores quentes do horizonte a diluírem-se no azul gradualmente mais frio e mais escuro. Regressava a casa, com uma lágrima ao canto do olho, já a escuridão tomara conta do céu.

Era um hábito que mantinha religiosamente. Ao início ainda lhe parecia sentir na sua, a mão de Fernando, mas com o passar do tempo e o avolumar da solidão, o crepúsculo cada vez se tornava um momento mais penoso, por força das recordações contraditórias.

Felizmente a vida de Fernando não tivera um crepúsculo. Fora uma luz que se apagara bruscamente, traído pelo coração que sempre estivera disponível para a amar. Lúcia não sofrera ao vê-lo sofrer. Sofria agora a sua ausência.

Quantas vezes, desde que se conheceram, naquele local e àquela hora que dispensa o relógio, o pôr-do-sol e o crepúsculo que lhe sucedia tinham sido ocasião para celebrar a vida. Quantas revelações, quantas decisões felizes, tinham tido por cenário aquele mesmo local e aquela hora mágica. Foi também ali que Fernando a pediu em casamento e ela prontamente lhe disse que sim; ali decidiram que ficariam para sempre a viver na Barra; ali ele ficou a saber que ia ser pai; …

Os anos passaram. Viram os filhos crescer. Viram-nos partir, primeiro Tomé e depois Cristina, para construírem a vida longe dos pais.

Quantas vezes Lúcia e Fernando voltaram àquele lugar, na transição do dia para a noite, para se deixarem encantar pela beleza sempre renovada daqueles instantes. O marulhar das ondas e os gritos das gaivotas que se estendiam pelo areal constituíam a banda sonora desses momentos de felicidade.

Lúcia nasceu longe dali, num vale encaixado entre montanhas, que o sol iluminava apenas quando já ia alto no céu e o ocaso não tinha por companhia aquelas cores que a viriam a fascinar.

Foi nas primeiras férias na praia que se apaixonou pelo pôr-do-sol sobre o mar, pelo crepúsculo.

Havia sempre gente que passeava por ali, mas Lúcia reparou num jovem, apaixonado como ela por aquele fim da tarde e que, tal como ela, escolhera a Meia‑laranja para o admirar. Olhavam inicialmente na mesma direção, mas acabaram por olhar também um para o outro. As férias terminaram com eles de mãos dadas, enamorados um do outro e com uma paixão comum por aquele espetáculo de luz.

Lúcia levara, como sempre, um livro, mas estava incapaz de ler. O tom dramático da filha, deixara-a preocupada. Perdera o emprego e não estava a conseguir outro que lhe permitisse sobreviver, continuar a pagar a renda de casa, … Viria acolher-se na casa da mãe, se ela não se importasse.

Lúcia nem pensou duas vezes. Claro que a filha e o neto eram era bem‑vindos.

Enquanto caminhava rumo à Meia-laranja, Lúcia ia tensa. Na memória tinha algumas discussões antigas com a filha e temia que o convívio forçado, sobretudo numa fase difícil da vida de Cristina – o divórcio primeiro, o desemprego depois – gerasse novas fricções.

Sentou-se no muro da meia-laranja e olhou o céu. A obra de arte que tinha na sua frente, com cores inimitáveis, e em suave mutação, teve o dom de a acalmar. Pensou que, pelo menos, não estaria mais sozinha. Aprenderiam a viver juntas.

Cristina depressa encontrou um emprego. Era mal pago e tinha um horário que seria impossível de aceitar se não contasse com a ajuda da mãe para ir buscar o neto à escola e dar-lhe o jantar.

Lúcia ficou maravilhada com a inteligência e com a sensibilidade do rapazinho.

Ali estava ela, na esplanada do costume, à hora do costume. Diferente era o livro que levava e… a companhia. Leu-lhe uma história infantil.

Depois o passeio até à Meia Laranja. Lúcia e Fernando, de mão dada.

Ficaram em silêncio olhando o pôr-do-sol. Lúcia recordou-se das primeiras vezes que o apreciara. Nos olhos fixos e maravilhados do neto reviu os do seu amado.

– Ó avó, sabes que o teu nome significa luz? – disse ele com um brilho dourado nos olhos azuis e entusiasmo na voz.

– Sim, sei. E tu, sabes que tens o nome de um grande homem?

– Sim, o do avô Fernando.

Fernando olhava, deslumbrado, as cores do crepúsculo que se iam desvanecendo.

Lúcia reencontrara, na beleza daquele ocaso e na companhia do neto, a paz de espírito de que precisava para não mais sentir a solidão, a escuridão que se segue a cada crepúsculo.

 

imagem colhida em http://www.facebook.com/photo.php?fbid=3518316407738&set=o.159495297397563&type=1&relevant_count=1

 

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Histórias de Ensinar

O livro Histórias de Ensinar, publicado pela Raiz Editora em E-book, em formato pdf, está disponível para leitura / download no site da editora.

Trata-se de uma coletânea de histórias contadas por professores e educadores, na sequência de um passatempo promovido no facebook.

A minha participação chama-se Pais e filhos e está na página 46. Podes ler aqui

Histórias de ensinar

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Mãe

Dedicado a todas as mulheres que merecem o nome enorme de “Mãe”

Mãe

Já corre com os ponteiros

Ainda é madrugada

Em labuta diligente

É a única acordada

Naquela casa dormindo

Com tanto para fazer

Antes de ir para o emprego

O tempo tem que render

Acorda filhos… marido

Com o sono ainda tonto

Deixa os pequenos entregues

E chega antes do ponto

Dá um pulinho a casa

Quando é hora de almoçar

Come sozinha à pressa

antes do filho chegar

Deixou-lhe tudo já pronto

Preparou-lhe a refeição

E vai olhando o relógio

Não quer ouvir do patrão

Chega a casa cansada

Traz pela mão a miúda

Tem que lembrar os trabalhos

E ver se ela estuda

O recado da escola

Deixou-a preocupada

Diz que a filha precisa

De ser mais acompanhada

E o mais novo faz birra

Como a pedir atenção

Acaba fazendo uns riscos

No caderno do irmão

Tem mesmo que intervir

Para o ambiente serenar

Acaba com a discussão

E vai fazendo o jantar

Entre gestos maquinais

Vai espreitando a novela

Queria ser como a atriz

Sonha com a vida dela

Tratou do banho dos filhos

E o jantar está servido

Já está tudo mais calmo

Quando chega o marido

Finalmente conseguiu

Enfiar todos na cama

O pequeno pede a história

E que lhe vista o pijama

Senta-se um breve momento

Embevecida a olhar

Eles dormem e há paz

Vale a pena apreciar

Pensou na louça e fez

O encanto desaparecer

Está na hora de dormir

E o que ainda tem para fazer.

João Alberto Roque

Esta é uma história em verso (não propriamente um poema) que escrevi há mais de uma dúzia de anos (estava na “gaveta” desde o dia 5 de Janeiro de 2001). Hoje lembrei-me de a colocar no blogue… podia tê-lo guardado mais uns meses e publicá-lo em Maio, a propósito do “Dia da Mãe”, mas acho que concordarão comigo se afirmar que todos os dias são Dia da Mãe.

A ilustração, que encaixa tão bem no meu texto, foi encontrada aqui, no blogue Ilustrações, desenhos e outras coisas de Ana Oliveira.

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Dia das Bruxas (Halloween)

Um susto de história com uma bruxa feia e um gato preto

A noite estava completamente escura, mas não chovia… A temperatura até andava quente para a época, mas o gato preto aninhava-se enroscado perto do lume. Dormitava. De vez em quando abria um olho a controlar os movimentos da dona.

A fraca luz, na cozinha de paredes escurecidas pelo fumo, não deixava ver grande coisa, mas os gestos – à custa de tantas repetições – já quase podiam ser feitos de olhos fechados.

A velhinha, completamente vestida de negro, entoava a sua cantilena, enquanto mexia o conteúdo da panela enegrecida pelo fumo da lenha.

Estás a imaginar a cena, não estás? O que tu não imaginarias – nem ela, provavelmente – é que, nas redondezas, uma figura baixota, atarracada, mas com um chapéu enorme que parecia fazê-la mais alta e roupas negras que praticamente a tornavam invisível no negro da noite se encaminhava para sua casa e estava, aliás, já ali bem perto.

O chapéu em cone, de abas largas e de cor também negra; as roupas que vestia e sobretudo aquela cara, em que não faltava um nariz disforme, onde saltava à vista uma verruga – Sim! Tinha uma enorme verruga no nariz – a vassoura que trazia numa das mãos e arrastava pelo chão… não havia engano possível… quem se aproximava, a coberto da noite, era uma figura verdadeiramente sinistra.

Dentro de casa, calmamente, a velhinha lançava na panela uma pequena quantidade de algo que tirara de um dos frascos alinhados no aparador perto de si – uma medida sabiamente afinada pela experiência de muitos anos.

A sobrepor-se aos fracos sons que resultavam dos gestos tantas vezes repetidos e à sua voz ainda melodiosa, ouviram-se cinco fortes pancadas na porta.

O gato abriu os olhos, levantou-se, eriçou os pelos, arqueou a coluna e saltou na direção donde viera aquele barulho que o incomodara no seu sono. A velhinha, sobressaltada, calou-se e parou de mexer a panela negra de onde saíam abundantes vapores e, penosamente, dirigiu-se à porta.

As mãos da simpática velhinha tremiam… e não era de frio.

Como já te contei, a temperatura até estava agradável…

O quê! Pensavas que era uma bruxa? Embora pudesse parecer, não! Não era uma bruxa! Era mesmo apenas uma velhinha que, com mão trémula, abriu a porta devagar…

Olhou a bruxa nos olhos – olhos que mal se viam na carantonha horrível…

Esta sim, era uma bruxa! Aquela cara feiosa, com a enorme verruga no nariz – também ele bastante avantajado e adunco – e um ar malévolo era, sem ponta de dúvida, a de alguém que queria assustar, que queria que ninguém tivesse dúvidas de que estava na presença de uma bruxa má.

A velhinha, com uma voz onde o susto parecia genuíno, perguntou:

– Porque é que tens uma cara tão feia?

– É para te pregar um susto! Um susto tão, tão grande…

E a bruxa esticava os braços, num gesto sugestivo, a ameaçar a velhinha de horrores enormes.

– Só escapas se me deres já… aquilo que já sabias que eu hoje… cá viria procurar!

E a bruxa entrou pela casa com o ar decidido de quem sabe bem o que quer. Já dentro da casa a sinistra figura pôs a mão à cara horrenda e, determinada, puxou pelo nariz.

Com a outra mão, pegou em algo que os dedos trémulos da velhinha seguravam… e levou à boca. Depois, com a beiça lambuzada do chupa-chupa, deu um beijo doce à avó.

A vassoura, a máscara e o chapéu do disfarce do dia das bruxas lá ficaram, atirados para um canto.

Entretanto a bruxinha notou:

– Cheira bem! Estavas a cozinhar?

– Estou a fazer sopa. Está quase pronta. Queres um pratinho?

– Claro! Isso pergunta-se? A sopa da avó é a melhor do mundo. O resto do chupa fica para depois…

E a menina deu a mão à avó e, seguidas pelo pachorrento gato preto, dirigiram-se à cozinha.

……………………………………………………………………

Esta pequena história já a publiquei em 2009, mas resolvi republicá-la agora que se aproxima mais um dia das bruxas. Inspirada na bruxinha cá de casa, que gosta de se disfarçar de bruxa e (com as amigas e a mãe duma delas) correr as casas da vizinhança/família com a conhecida frase  doce ou travessura.

…………………………………………………………………..

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MV      

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Fábula para maiores de dezoito anos e crianças inteligentes

.

Numa reserva natural

Algures (em Portugal)

Era tempo de eleições,

Um tempo de ilusões.

.

Qualquer bicho percebia

Que a situação não ia

Tão bem como outrora

(e já não era de agora)

.

E se tudo estava mal

Mudar era essencial…

.

Havia duas propostas

Que pareciam opostas,

Descritas em termos latos.

E eram dois os candidatos:

O coelho e o urso.

.

Muito hábil no discurso,

Quando o debate surgiu,

O coelho concluiu:

«Todos temos de ajudar

Só eu posso liderar.

.

O urso gosta é de mel…

Não cumpre bem o papel.

E eu cá só como erva

Sou o melhor para a reserva».

.

Os animais convencer

Foi fácil, fez-se eleger.

Mas se era bom a falar

Não se via melhorar

A situação da reserva.

Até pagavam a erva

Que antes havia a rodos

E sempre fora de todos.

Imagem colhida em http://www.imagensdeposito.com/tags/1/wallpaper+de+coelho.html

.

O urso, pois que perdera,

Ainda nada dissera.

(estaria a hibernar?

Saíra para apanhar ar?)

.

E os pobres animais

Esses não podiam mais,

Que o coelho exigia

Muito mais do que havia.

.

Tinha amigos com poder

E eram mais três a comer…

Engordava o gato bravo

Mais a cobra e o lobo.

E estes, os que lucravam

Com o que os outros poupavam,

Detinham-se a elogiar:

«Tudo está a melhorar…»

.

Tinham mais um aliado

Que aparecia em qualquer lado

E com todos convivia:

O que a toupeira escrevia

Tornava-se, no jornal,

A verdade oficial

E quem caía em desgraça

Era “bicho de má raça”.

E tudo o que sugeria

– «Corte-se tal regalia» –

Era logo posto em prática

Na situação já dramática

E tudo se complicava…

.

Mas se alguém se queixava

Era logo apontado,

Era logo acusado

De não estar a ajudar,

De só querer prejudicar

O esforço comunitário,

De piorar o cenário.

.

E se alguém contestava,

Logo uma fera rosnava.

Calava-se o desordeiro,

Que até parecia um cordeiro.

Reforçava o seu poder

O coelho, estão a ver?

.

E andava a bicharada

Cada dia mais calada.

Até que um pequeno rato

Constatou, um dia o facto:

«Está a reserva estragada.

Afinal não mandas nada,

Não passas de um fantoche!»

«Que infâmia, que deboche!

Nunca fui tão ultrajado»

Diz o coelho, inflamado.

.

Foi o rato para a prisão.

«Se tu me deres permissão,

Eu livro-te desse traste,

Antes que o problema alastre.

Engolia-o dum travo.»

Sugeriu o gato bravo.

E o ratito sumiu,

Nunca mais ninguém o viu.

.

Nos elogios, a esmo,

Que fazia a si mesmo,

O líder dramatizava

E, solene, afirmava

Com ar triste e infeliz:

«Ninguém louva o que fiz…

Há tanto bicho ingrato.»

.

Foi-se perdendo o recato

E o lobo nem disfarça,

Já farto daquela farsa,

Já dá ordens diretas,

Ordens nem justas nem retas,

E ai de quem desobedeça,

Ai de quem não agradeça…

.

O coelho e os parceiros,

O trio de interesseiros,

Vivem todos regalados

Cada vez mais anafados.

.

Para o resto da bicharada

Já não sobra quase nada.

E nem se podem queixar…

Pode o trio não gostar.

.

Cresce a revolta surda,

Pela situação absurda:

Governa quem eles não queriam,

Em quem nunca votariam.

.

Vai ficando evidente

Que quem manda realmente

É o trio apoiante

E o coelho bem-falante

Que elegeram, afinal,

Tem papel ornamental.

.

Reinam as indecisões:

Não há fáceis soluções,

Talvez outra liderança

Facilite a mudança.

.

Têm que ser realistas

Não há respostas simplistas,

Mas se todos trabalharem

Se todos colaborarem…

.

Talvez, querem acreditar,

Se cada qual ao votar

Pensar pela sua cabeça

Algo de bom aconteça…

.

Mas cuidado, que as toupeiras

Não fazem, interesseiras,

Críticas imparciais

E não são todos iguais

Os que querem liderar…

.

É preciso acautelar:

Bichos de falinhas mansas

Querem é encher as panças.

.

Bicho que queira mandar

Não basta saber falar.

Tem que mostrar ter jeito

E ser bicho de respeito;

Tem que ter ideias novas;

Tem que ter já dado provas

De amor ao território

E um trabalho meritório.

.

Por isso, antes de votar,

Cada qual deve pensar,

Com uma só influência:

A sua própria consciência…

 
João Alberto Roque

.

Esta foi uma fábula que escrevi há uns meses (junho ou julho) mas que me parece cada vez mais atual.

Qualquer semelhança com factos ou pessoas reais poderá não ser pura coincidência. Aliás, acontecimentos recentes parecem dar maior sustentação ao enredo… E estamos cada vez mais enredados.

Também a nível local, algo que aconteceu nesta quarta feira, na minha cidade (Gafanha da Nazaré) me deixou-me preocupado, por sentir que as pessoas, mesmo as que têm mais responsabilidades, não conseguem ser verdadeiramente independentes e livres para decidir em consciência.

.

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Super sardinha

Era uma noite tenebrosa, de tempestade, e algures no Pacífico, uma jovem sardinha, a Miquelina, brincava na crista das ondas.

Ribombava a trovoada na atmosfera, um espectáculo de clarões e luzes que ela admirava. Gostava de aventura e de se divertir, embora os seus pais a avisassem para ter cuidado com os vários perigos do mar, como predadores, poluição e pescadores, mas a sardinha não prestava muita atenção, porque achava que era demasiado nova para se preocupar muito com isso

http://artigo126.blogspot.com/2010/05/vida-da-sardinha.html 

A sardinha conseguia vislumbrar a ténue luz da Lua, meio coberta pelas nuvens, e no meio da obscuridade, ela viu uma sombra volumosa no horizonte, que se agigantava na sua direcção.

Não coube em si de curiosidade e nadando agilmente, aproximou-se dela. Ficou muito admirada com o que viu. Parecia-se mais ou menos com uma baleia, mas tinha algo diferente de todas as que vira até então. Para começar, tinha um comportamento estranho: nadava à superfície e praticamente não se mexia, mas para o tamanho que tinha, rasgava as ondas com uma facilidade notável. Pensou no que havia de fazer. Queria muito saber o que era aquilo, por isso, com algum receio, decidiu tocar-lhe. Sentiu uma superfície dura, lisa, desgastada e com alguns arranhões. Afastou-se alguns metros com receio de ter sido notada, mas a criatura parecia ignorá-la. Continuava a pensar no que havia de fazer, quando ouviu alguém a chamá-la:

– Miquelina! Miquelina

Voltou-se e reconheceu Jonas, um velho peixe-palhaço do seu recife.

– Que é? – perguntou ela, aborrecida.

– Afasta-te dessa coisa!

Ela virou-se de novo para aquela coisa gigantesca, e perguntou, cheia de esperanças:

– Sabes o que …

– Andei à tua procura durante muito tempo! – interrompeu ele. – Não devias andar aqui a estas horas! Os teus pais estão preocupados. Vem para casa, que se faz muito tarde e aqueles palermas dos irmãos Atum andam por aí a verificar se está toda a gente em casa. Se eles reparam que faltas, fazem mal à tua família!

– Está bem! Está bem! Mas ao menos diz o que é!

– É uma criatura diabólica. Já vi muitas delas na minha vida: aparecem com frequência por estes mares e só trazem morte e destruição! Cala-te e anda, antes que nos ma…

Uma onda violenta embateu no barco, e com a forte sacudidela, caíram vários barris de lixo tóxico transportados pelo gigante, perto dos dois.

A Sardinha esbugalhou os olhos quando viu aqueles objectos a boiar à superfície. Deles saia um líquido verde brilhante que os envolveu rapidamente

Jonas, espantado, exclamou:

– Foge!

Nadaram para o fundo o mais rápido possível. Demasiado atordoada para dizer alguma coisa, a pequena limitou-se a seguir Jonas, mas começava a sentir-se mal e acabou por desmaiar.

Quando acordou de manhã, estava em casa. Chamou pelos pais, que vieram ter com ela.

– Que é que se passou? – perguntou.

– O Jonas contou-nos. O que aconteceu é que te andas a meter em aventuras, e agora isto… Ao menos estás bem?

– Bem, acho que sim. Sinto-me muito melhor.

De repente, ouviram um grito e a sardinha foi ver quem era. Eram os dois irmãos Atum, mafiosos que estavam a trabalhar para o Silvério, o maior criminoso da área (e ao mesmo tempo o mais pequeno, porque era um camarão). Gostavam de controlar a vida dos outros peixes, e se eles não estivessem no recife na hora do recolher obrigatório, poderiam comê-los!

– Vai-te esconder! – ordenou o pai.

Ela foi-se esconder atrás de umas algas, enquanto os brutamontes falavam com os pais. A certa altura, ela viu que a coisa ia dar para o torto, e para proteger os pais, encheu‑se de coragem, e lançou-se ao Atum mais próximo. Surpreendentemente, quando se deu o embate, o Atum foi atirado para trás com uma força tremenda, contra um rochedo.

Um velho polvo que ia a passar perto, apanhou um grande susto e exclamou:

– Uuuuuuups! Borrei-me!

– Badalhoco! Sujaste-me todo com tinta! – exclamou o Atum, que desmaiou logo de seguida. O outro ficou tão espantado com a força desmedida da sardinha, que se acobardou e fugiu.

Ela ficou assombrada com o seu próprio poder. Foi falar com Jonas, que estava em casa a descansar, e contou-lhe o que tinha acontecido. No fim, perguntou-lhe:

– Também conseguiste super-poderes?

– Não, só consegui cancro!

No dia seguinte, ao almoço, voltou a ouvir-se barulho na vizinhança. A sardinha pensou se seriam os Atuns outra vez. Desta vez não tinha medo, por isso foi inspeccionar o que se passava. Quando saiu de casa, viu Silvério e o seu poderoso aliado, Joaquim, o grande tubarão branco.

– Então és tu que agrides os meus peixes? Não passas de um bicho insignificante! – troçou o pequeno mafioso.

– Olha quem fala, minorca! – retorquiu Miquelina.

O camarão, furioso, gritou:

– Ai é? Já vais ver! Joaquim, destrói esta criatura insolente!

O tubarão atacou a sardinha, tentando mordê-la, mas ela esquivou-se facilmente. A sardinha não perdeu tempo e investiu sobre o adversário com toda a força. O tubarão resistiu e tentou devorar a pequena, mas ela lançou-se mais uma vez e mandou-o contra o chão, derrotando o monstro.

Cansada, olhou para Silvério, que estava boquiaberto, e disse-lhe bem alto:

– Queres alguma coisa? Parto-te todo, palhaço!

– Que é? – perguntou Jonas, que tinha acabado de sair de casa.

– Desculpa, não estava a falar para ti!

O camarão cobarde aproveitou para fugir, enquanto ninguém estava a olhar, e nunca mais foi visto nos arredores. Fizeram uma festa em honra da heroína e toda gente ficou a saber a história de Miquelina, a Super-sardinha.

David Roque

Como foi referido no “post” anterior, o David ganhou o primeiro prémio no X Concurso Literário Jovem, uma iniciativa da Câmara Municipal de Ílhavo.  Depois de a sua “Super História” – onde brinca com os heróis dos desenhos animados/banda desenhada – ter conseguido o terceiro prémio em 2010, agora voltou a concorrer com outra história onde uma apresenta uma insuspeita super-heroína: Miquelina, a “Super Sardinha”.

Parabéns, (Super-)David.

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Uma aventura no mar   Prémio Literário Hernâni Cidade

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Uma aventura no mar

Era uma vez uma pescada, uma tartaruga, um caranguejo e uma estrela-do-mar, que viviam entre algas e rochedos.

Numa manhã de maré-baixa, um peixe que nadava calmamente nas águas profundas do mar acordou a pescada.
– Bom dia, pescada. – disse a tartaruga, à amiga que tinha acabado de acordar.
– Olá, como estás? – inquiriu a pescada.
– Eu estou bem, estive a arrumar a minha casa.
A pescada foi procurar a sua amiga estrela-do-mar. Decidiu então ir a sua casa. Quando lá chegou, bateu à porta e a amiga abriu.
– O que estás a fazer? – perguntou a pescada.
– Estou a enfeitar-me para ficar bonita. – disse ela.
– Oh, estrela-do-mar, tu estás sempre com a mania de querer brilhar.
Entretanto, chegou o caranguejo, excitado.

http://www.baixaki.com.br/papel-de-parede/44283-caranguejo-da-praia.htm

– Vocês nem acreditam no que me aconteceu: eu estava na praia de areia fina banhada pelo mar, quando um rapaz me apanhou e me meteu num balde. Ele queria levar-me, mas eu belisquei-o e saí do balde.

O caranguejo foi para casa, descansar de tantas aventuras que naquela manhã tinha vivido.

A pescada estava a brincar com a estrela-do-mar, quando ouviram alguém a chorar.

Foram ver o que se passava e viram então uma carpa de escamas vermelhas e brilhantes, que chorava tristemente.

Perguntaram à carpa por que razão estava a carpir assim, e ela respondeu:

– Eu choro porque a minha amiga foi pescada por um barco muito grande.

Como a estrela-do-mar e a pescada não tinham mais nada para fazer, quiseram ajudar.

Nadaram até um cais, subiram à superfície, e procuraram o tal barco, até que o avistaram. Era muito grande e branco. Tinha presa uma rede enorme, onde estava a amiga da carpa. Ela estava aflita e tentava libertar-se.

Foram as três tentar romper a rede, até que a pescada teve a ideia de ir chamar o caranguejo.

Nadou até casa do amigo e pediu-lhe ajuda. Ela aceitou e lá foram os dois.

Quando lá chegaram, o caranguejo cortou as redes com as suas tenazes e a carpa conseguiu sair.

As carpas agradeceram-lhes e o caranguejo voltou para casa. A pescada e a estrela-do-mar ficaram cheias de curiosidade e foram a nadar, cada vez até mais longe. Enquanto nadavam distraídas, quase eram pescadas pela rede do tal barco grande, se um peixe que estava a passar não as tivesse avisado.

– Ai, quase ias sendo pescada! – disse a estrela-do-mar.

– Mas, estrela-do-mar, eu já sou pescada. – disse ela confusa.

Assustadas, nadaram rapidamente até ao lugar onde moravam, entraram em casa e foram dormir.

No dia seguinte, o caranguejo acordou bem cedo e foi para a praia. Esta estava deserta e ele deixou-se ficar deitado a aproveitar o sol e o calor. Ficou por lá durante um bocado até que acabou por adormecer.

Entretanto, não muito longe dali, a estrela-do-mar que já tinha acordado estava a nadar no mar, já depois de se ter enfeitado. Nadava a grande velocidade e contornava rapidamente as rochas e rochitas que por lá havia.

A certa altura viu as suas duas amigas carpas que vinham avisá-las, a ela e à pescada, que o seu cardume tinha decidido ir embora.

A estrela-do-mar foi chamar a dorminhoca da pescada que ressonava levemente, deitada na cama.

Ela acordou e disse-lhe o que se passava. A pescada ficou muito triste.

A pescada quis ir despedir-se da Carpa, preparou-se e nadou até lá.

Quando a pescada lá chegou perguntou-lhe por que é que ela ia embora e a carpa disse que no sítio onde viviam havia muitos pescadores e elas não queriam ser pescadas.

A tartaruga estava a chegar de um passeio na praia e contou as novidades:

– Fui à praia para por ovos mas estava lá muita gente.

– E qual é problema? – perguntou a estrela-do-mar.

– Não quero que os meus ovos acabem numa omelete.

– E o que é que vais fazer? Não me digas que também te vais embora. – disse a pescada, preocupada

– Tenho que encontrar uma praia deserta.

– Falaram-me de uma aqui perto. Foi o caranguejo que depois de uma aventura arriscada resolver procurar um sítio mais calmo. – afirmou a estrela-do-mar.

– Por falar no caranguejo, aí está ele. – informou a tartaruga.

– Ouvi a vossa conversa… há uma praia pequenina entre arribas onde se pode dormir descansado sem ninguém vir incomodar. Eu depois digo-te onde é.

E assim os quatro amigos – a pescada, a tartaruga, o caranguejo e a estrela-do-mar – continuaram juntos e felizes entre algas e rochedos.

Cecília Roque

Como o pai anda com pouco tempo para escrever e alguma falta de inspiração, escreveram os filhos… e ambos ganharam (nos respectivos escalões – a Cecília no 1º Ciclo e o David no 3º ) o X Concurso Literário Jovem, organizado pela Câmara Municipal de Ílhavo.

Este texto é o da Cecília. A minha filha passou de personagem das minhas histórias… a autora das suas. 

Ganhou o primeiro prémio e espero que tome o gosto da escrita. Da leitura já tem… Eu que acompanho o seu percurso, sei que houve aqui influência dos “Contos da Mata dos Medos” do Álvaro de Magalhães, um livro que ela tinha lido há pouco. 

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Teatro  Cecília e Sissi

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Super-História

Era uma vez um jovem super-herói chamado Super-Homem, que era filho da Capuchinho-Vermelho.

Um dia a Capuchinho-Vermelho disse-lhe:

– Vai entregar este cesto cheio de comida à Avó que vive no outro lado do mundo, no Bosque dos Cem Acres.

http://coucounette.no.sapo.pt/cem_acres.htm

Ele era malcriado, pelo que retorquiu:

– Não quero, mãe! É uma super-seca com S maiúsculo!

A mãe ralhou:

– Ou vais ou eu dou-te um super-castigo!

– Às vezes dá vontade de atirar a minha mãe para o Sol – resmungou ele, já a caminho.

Estava a meio do voo, quando sentiu uma necessidade inadiável, por isso aterrou de emergência no sítio onde se encontrava.

Quando olhou à volta, avistou um gigantesco palácio, e, como também tinha fome, entrou.

Estava tudo muito silencioso. Subiu as primeiras escadas que encontrou e quando acabou de as subir, coisa que demorou muito tempo, viu um quarto onde estava deitada na cama uma rapariga a dormir. Já sem paciência, berrou:

– Está aí alguém?!

– Quem és tu? – perguntou-lhe a rapariga que tinha acordado.

– Sou o Super-homem! E tu quem és?

– Sou a Bela-Acordada.

Ouviram-se barulhos na escada e entrou no quarto um estranho que se apresentou:

– Sou o Príncipe da história e vim acordar a Bela-Adormecida do seu sono.

– É tarde de mais, por isso vai chatear outro! – disse o Super Homem que deu um murro na cara do Príncipe chato que o deixou a ver estrelinhas.

Quando se preparava para partir, a Bela Acordada pediu-lhe para a levar consigo. O Super-homem recusou, mas como ela insistiu, ele não teve outra opção senão aceitar.

Algumas horas depois, chegaram ao destino: o Bosque dos Cem Acres. Antes do Bosque havia uma praia onde se podiam ver caranguejos a passear no chão ou gaivotas à procura de almoço. Bem perto, o Nemo e a Pequena Sereia brincavam nas ondas.

De repente apareceu-lhes pela frente um estranho urso amarelo com camisola vermelha que lhes perguntou:

– Viram os meus amigos?

– Não, por isso desaparece daqui! Nem sequer sabemos quem tu és! – respondeu o Super-Homem .

– Eu sou o Winnie the Pooh.

– Quero lá saber!

Começaram a andar em direcção à casa da Avó do Super-Homem sempre seguidos pelo Pooh, que não os largava.

– Tu não te vais embora? – perguntou a Bela Acordada .

– Vocês podem ser os meus novos amigos. – disse o Pooh .

Como ele não ia, eles decidiram simplesmente ignorá-lo.

A certa altura, ouviram um barulho nos arbustos e deles saiu um lobo. Para grande espanto deles, começou a falar:

– Olá eu sou o Lobo Mau e …

– Não tenho mais paciência ou tempo para bichos irritantes como tu, por isso vai‑te catar!

Dito isso, pegou no Lobo, deu-lhe três voltas e atirou-o para longe.

Pouco depois, chegaram à casa da Avó do Super-Homem. Então entraram e viram deitado em cima da cama o Lobo Mau, vestido de Avó. O Super-Homem perguntou-lhe:

– Achas que sou idiota? – e deu ao Lobo um chuto no rabiosque que o mandou directo para a Atlântida.

Ouviram-se uns barulhos no armário. Quando foram verificar, viram que dentro do armário estava a Avó, os amigos do Pooh, o Godzilla e o Noddy.

Depois, o Super-Homem e a Bela Acordada casaram e viveram felizes para sempre. Tiveram três filhos: o Pinóquio, a Branca de Neve e o Ruca.

 

David Roque

 
 
 
Com esta história, escrita quando ainda estava no 7º ano, o David conseguiu o terceiro lugar no concurso organizado pela Câmara Municipal de Ílhavo,  no ano lectivo 2009-10, para o seu escalão (3º Ciclo).
 
 
 
 
 
 
 
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Cecília e Sissi
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Só vendo, como S. Tomé

A mamã diz-me para estar sossegada, mas não consigo… é a primeira vez que vou voar. Quer-me sentada, junto dela. Isso faço eu, todos os dias. Ela está é nervosa, desde a chegada ao aeroporto, cheia de medo. Eu cá, não… Sou Pardal.

Nesta janela cabem tantos aviões… Em qual deles irei? Aquele branco e vermelho é tão lindo. São todos. Quando disser às minhas amigas que já andei de avião, vão ficar cheias de inveja. Gostava de levar comigo a Cláudia e a Patrícia, os meninos todos do terceiro ano.

Finalmente, conhecerei o meu avô Salustino Pardal e comerei as lagostas que ele pesca. Na carta que me escreveu, diz que são as melhores do mundo. Vou visitar a terra onde os meus pais nasceram e que é também, mas só um nadinha, o meu país: S. Tomé.

Mas eu sou, um pouco, como S. Tomé: só vendo é que acredito. Prometiam há tanto tempo… Será que é mesmo desta? Só quando estiver sentada no avião, quando apertar o cinto de segurança e o avião levantar voo é que acredito que vou mesmo voar.

Vai ser bué da fixe. Melhor do que andar na roda gigante da Feira de Março, que foi a coisa mais excitante que fiz… até hoje.

imagem retirada de http://mil-hafre.blogspot.com/2009/12/destino-mundo-lusofono.html


Este pequenino texto resultou de um exercício feito num trabalho de casa (no Curso Livre de Escrita Criativa), sobre o ponto de vista do narrador, neste caso na primeira pessoa: uma criança excitada com a perspectiva de voar pela primeira vez.

Tínhamos um número limitado de linhas… não nos podíamos esticar muito.

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TOP 10 Infantilidades – número 1

Há algum tempo resolvi colocar na barra da direita o

TOP 10 Infantilidades.

Claro que notei que alguns visitantes do “Infantilidades” visitaram os blogs ou sites que eu sugeri mas menos do que a qualidade das histórias justificaria. Assim passo a apresentar cada um deles começando pelo primeiro da lista (renovada).

Top-1http://historiasparaosmaispequeninos.wordpress.com/

Quem visitar este blogue não se esqueça de que, como na generalidade dos blogues do WordPress, há separadores no topo que deverão ser consultados. Sugiro, especialmente para as crianças, o  que contém a lista das histórias

http://historiasparaosmaispequeninos.wordpress.com/caixinha-das-historias/

e, para os adultos, também os textos de reflexão.

http://historiasparaosmaispequeninos.wordpress.com/textos-de-reflexao/

Aproveitem as minhas sugestões… verão que não dão o tempo por perdido.

E voltem sempre…

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MV CP Cecília e Sissi

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Um susto de história com uma bruxa feia e um gato preto

A noite estava completamente escura mas não chovia… A temperatura até estava quente para a época, mas o gato preto estava enroscado perto do lume. Dormitava. De vez em quando abria um olho a controlar os movimentos da dona.

A fraca luz, na cozinha de paredes escurecidas pelo fumo, não deixava ver grande coisa, mas os gestos – à custa de tantas repetições – já quase podiam ser feitos de olhos fechados.

A velhinha, completamente vestida de negro, entoava a sua cantilena, enquanto mexia o conteúdo da panela enegrecida pelo fumo da lenha.

Estás a imaginar a cena, não estás? O que tu não imaginarias – nem ela, provavelmente – é que, nas redondezas, uma figura baixota, atarracada, mas com um chapéu enorme que parecia fazê-la mais alta e roupas negras que praticamente a tornavam invisível no negro da noite se encaminhava para sua casa e estava, aliás, já ali bem perto.

O chapéu em cone, de abas largas e de cor também negra; as roupas que vestia e sobretudo aquela cara, em que não faltava um nariz disforme, onde saltava à vista uma verruga – Sim! Tinha uma enorme verruga no nariz – a vassoura que trazia numa das mãos e arrastava pelo chão… não havia engano possível… quem se aproximava, a coberto da noite, era uma figura verdadeiramente sinistra.

Dentro de casa, calmamente, a velhinha lançava na panela uma pequena quantidade de algo que tirara de um dos frascos alinhados no aparador perto de si – uma medida sabiamente afinada pela experiência de muitos anos.

A sobrepor-se aos fracos sons que resultavam dos gestos tantas vezes repetidos e à sua voz ainda melodiosa, ouviram-se cinco fortes pancadas na porta.

O gato abriu os olhos, levantou-se, eriçou os pelos, arqueou a coluna e saltou na direcção donde viera aquele barulho que o incomodara no seu sono. A velhinha, sobressaltada, calou-se e parou de mexer a panela negra de onde saíam abundantes vapores e, penosamente, dirigiu-se à porta.

As mãos da simpática velhinha tremiam… e não era de frio.

Como já te contei, a temperatura até estava agradável…

O quê! Pensavas que era uma bruxa? Embora pudesse parecer, não! Não era uma bruxa! Era mesmo apenas uma velhinha que, com mão trémula, abriu a porta devagar…

Olhou a bruxa nos olhos – olhos que mal se viam na carantonha horrível…

Esta sim, era uma bruxa! Aquela cara feiosa, com a enorme verruga no nariz – também ele bastante avantajado e adunco – e um ar malévolo era, sem ponta de dúvida, a de alguém que queria assustar, que queria que ninguém tivesse dúvidas de que estava na presença de uma bruxa má.

A velhinha, com uma voz onde o susto parecia genuíno, perguntou:

– Porque é que tens uma cara tão feia?

– É para te pregar um susto! Um susto tão, tão grande…

E a bruxa esticava os braços, num gesto sugestivo, a ameaçar a velhinha de horrores enormes.

– Só escapas se me deres já… aquilo que já sabias que eu hoje… cá viria procurar!

E a bruxa entrou pela casa com o ar decidido de quem sabe bem o que quer. Já dentro da casa a sinistra figura pôs a mão à cara horrenda e, determinada, puxou pelo nariz.

Com a outra mão, pegou em algo que os dedos trémulos da velhinha seguravam… e levou à boca. Depois, com a beiça lambuzada do chupa-chupa, deu um beijo doce à avó.

A vassoura, a máscara e o chapéu do disfarce do dia das bruxas lá ficaram, atirados para um canto.

Entretanto a bruxinha notou:

– Cheira bem! Estavas a cozinhar?

– Estou a fazer sopa. Está quase pronta. Queres um pratinho?

– Claro! Isso pergunta-se? A sopa da avó é a melhor do mundo. O resto do chupa fica para depois…

E a menina deu a mão à avó e, seguidas pelo pachorrento gato preto, dirigiram-se à cozinha.

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Apelo aos amigos  

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Uma história mal contada

Amigo visitante, sinto que estou em dívida para contigo, depois de tanto tempo sem te dar a merecida atenção, a ti que não me regateias a tua. Por isso, trago-te uma história um pouco longa e em verso. Diverti-me a escrevê-la. Espero que a sua leitura te dê o mesmo gozo!

Por questões técnicas é-me, de momento, impossível colocar a versão ilustrada da história, mas fica a promessa de que aqui será disponibilizada.

Fiquem então com…

Uma história mal contada

Há histórias que fazem parte do nosso imaginário colectivo
e que moldaram a nossa percepção da realidade.
A fábula da Lebre e da Tartaruga é uma dessas histórias.

E se La Fontaine foi induzido em erro
ou foi cúmplice de uma tramóia bem montada?

Os autores do presente texto, usando de ironia e humor,
vêm apresentar o resultado de uma aturada investigação,
onde demonstram que houve fraude e que, afinal,
a fábula da Lebre e da Tartaruga foi…

Uma história mal contada.

Os autores:
André Lebre e Ana Tartaruga


Dedico esta história – a verdadeira –

A todas as crianças que gostam de ler

E aos adultos com sentido de humor refinado.

La Fontaine, desculpa lá a brincadeira:

Adulterei a tua fábula, que é bonita a valer

E não tens culpa, porque foste enganado…


Agradeço às minhas fontes de inspiração:

Às socialites e a quem vai atrás do foguetório,

E, claro, aos jornalistas, juízes e advogados,

Aos políticos pouco sérios (felizmente excepção)

E aos homens do desporto que têm no repertório

Muitos modos diferentes de falsear resultados…


O caso que vos vou descrever

Passou-se há muitos e muitos anos

No estranho mundo dos animais…

Caso que nunca poderia acontecer

No mundo tão certo dos humanos

Onde ninguém engana os demais.


Tudo começou numa entrevista:

A Tartaruga, mediática e famosa,

Contava, ao pormenor, a sua vida.

Além da foto, na capa da revista,

Havia uma frase curta e poderosa

«Desafio a Lebre para uma corrida».


A Tartaruga, que tinha fama de ser lenta,

Queria mudar esse aspecto negativo:

Nada melhor do que desafiar a Lebre

O animal mais rápido da floresta

Mas um bicho assustadiço e esquivo

Que raramente saía do seu casebre.


A Lebre viu ali uma boa oportunidade

Por isso, como se sabe, aceitou o desafio

E declarou ao Papagaio jornalista:

«Ninguém me vence em velocidade».

Aprazaram a corrida, que seria junto ao rio,

Um local aprazível para servir de pista.


No dia previsto e à hora combinada,

Manhã cedo, já a Lebre aquecia

Os músculos das pernas e das costas.

Para ver a celebridade, a bicharada

Juntara-se onde a Tartaruga chegaria

E cada um fazia as suas apostas.


Como a sua especialidade é dar nas vistas

A Tartaruga nunca da pompa prescinde:

Pegou em dois copos que ela mesma encheu

– Há que evitar situações imprevistas -,

Deu um copo à Lebre e propôs um brinde:

«E que ganhe a melhor, ou seja… eu».


Após uma curta sessão de autógrafos,

O canto do galo deu o sinal de partida

– Sabem que os tiros assustam os animais.

Acompanhadas por jornalistas e fotógrafos,

Largaram. Claro que a Lebre saiu rápida

E a outra lenta – os seus estilos habituais.


A bicharada ansiosa esperava as velocistas

– Àquele ritmo, a Lebre já devia ter chegado –

De olhos na meta, estranhavam a demora.

Deveras admirados estavam os jornalistas

E conjecturavam o que se teria passado,

Que a partida fora há mais de uma hora.


Para a história ficou a fotografia

– Uma cena estranha e caricata

Divulgada em revistas e jornais:

À sombra duma árvore, a Lebre dormia

E a Tartaruga passava rumo à meta

(E fotografias não mentem, são reais).


A multidão já aplaudia a bicha célebre.

Sob a algazarra, a outra despertou

E, ainda tonta, correu como uma seta.

Mas chegou demasiado tarde, a Lebre

– A bicharada toda em coro a assobiou –

Que a Tartaruga já tinha passado a meta.


A façanha, a lenda, a bela história

Da Tartaruga correu mundo e encantou.

E ela – com um sorriso de orelha a orelha

Pois ficara muito bem na fotografia –

Sim, só ela sabia que a Lebre falhou

Sob o efeito da poção da amiga Abelha.

Ilustração original de Rute Freire e Alexandre Freire

Fraude perfeita? Não! Algo correu mal.

Um Ratito viu tudo e – finório – percebeu:

A Abelha a vender a poção para dormir;

A Tartaruga a deitá-la no copo da rival.

Esta bebeu e, durante a prova, adormeceu

E a outra, vagarosa, passou por ela a sorrir.


O Ratito, pensativo, até roía as unhas:

Para repor a justiça teria que acusar

Uma personagem com grande influência,

Sem quaisquer provas nem testemunhas.

Para divulgar o que vira, teria que usar

Toda a sua perspicácia e prudência.


Escrever uma carta anónima foi a solução…

Dirigida ao empenhado jornalista

A relatar o que vira, de forma precisa.

Este achou que, se não era só imaginação,

Havia ali assunto a não perder de vista

E começou a preparar a sua pesquisa.


O jornalista confrontou, com tais questões,

A Tartaruga que o olhava de soslaio.

A ilustre visada, ofendida, negou o facto.

Achando-se intocável, imune a suspeições,

Cometeu o erro de humilhar o Papagaio,

Chamando-lhe incompetente, fala-barato.


A notícia não tardou a vir a público

– a bicharada sedenta de emoções –

E descobriu-se uma vida escandalosa.

Desde que o credível Papagaio abriu o bico

Sucederam-se, em catadupa, as revelações.

Para começar houve uma ajuda preciosa:


Séria e tendo que manter a reputação

De especialista em doces e venenos,

A doutora Abelha, envolvida por abuso,

Revelou que a tartaruga pedira a poção

Porque andava a dormir bastante menos

E afirmara ser para seu próprio uso.


Tal como a Tartaruga corpulenta,

A mentira tem pernas curtas e baixo nível

E foi no tribunal que o caso foi disputado,

Mas, como a ré, a justiça é muito lenta

E tem uma carapaça quase intransponível

Se há alguém rico e poderoso implicado.


A Tartaruga sempre foi um animal

– não se esqueçam – muito influente

Dá-se com bestas capazes do pior

E, claro, o caso prescreveu no tribunal.

A Tartaruga continua, indiferente

Na sua carapaça, a achar-se a maior.


É esta a única e verdadeira história,

Contada com todo o rigor e boa-fé

Sem quaisquer enfeites nem fantasias.

Conseguir contá-la é já uma vitória…

Estranhamente, quão diferente é

A versão que chegou aos nossos dias.


O caso que hoje vos descrevi

Passou-se há muitos e muitos anos

No estranho mundo dos animais…

Caso semelhante nunca eu vi

No mundo tão certo dos humanos

Onde ninguém engana os demais.


A imprescindível Moral da História:

Cuidado! Que as aparências enganam.

Pensem por vós, sem ingenuidade,

E mesmo que pareça luta inglória,

– Mesmo quando muitos vos abandonam –

Escolham sempre o lado da verdade.

João Alberto Roque

 

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A almofada desaparecida

A Cecília, ultimamente, andava com um hábito estranho: saía da cama pela manhã e trazia consigo a almofada.

Ia tomar o pequeno-almoço e levava atrás… a almofada.

Ia para a sala brincar e … isso mesmo, não ia sozinha.

A almofada era a sua companhia inseparável.

Estão a ver o problema? Não?

É claro que, nestas andanças, por vezes esquecia-se da almofada.

Geralmente ficava num lugar bem à vista de todos e a mãe acabava por levá-la para o quarto da Cecília ou mandava-a a ela ocupar-se dessa tarefa o que, claro, não era boa ideia porque lembrava a Cecília do quanto gostava de andar agarrada à almofada e a coisa recomeçava.

Nessa noite quando foi para a cama reparou que faltava a sua querida almofada. Começou por pedir ao pai que fosse buscá-la. O pai, cheio de paciência, lá foi procurar a dita almofada, mas nada… nem sinais dela. Procurou em todos os locais em que a Cecília costumava andar e não a encontrou.

Foi dizer à menina e ela ficou muito triste. O pai lá lhe explicou mais uma vez que o lugar da almofada é na cama e que devia lá ter estado todo o dia à espera. Como a menina teima em andar a passear a almofada pode acontecer uma coisa assim. Depois disse à Cecília, que não se conformava com a falta da almofada, que a fosse ela procurar.

É preciso que se diga que a Cecília, quando chega a hora de ir para a cama, inventa mil desculpas para ficar mais um bocadinho acordada e nesse dia não tinha sido excepção. Já não era nada cedo. Como ainda estava de férias e no dia seguinte não tinha hora marcada para se levantar, o pai não estava muito preocupado, mas sabia que depois de um dia tão animado a garota devia estar cansada.

A Cecília lá correu toda a casa à procura:

a sua almofada não estava em cima da cama dos pais,

nem debaixo da mesa da cozinha,

nem dentro da arca dos brinquedos,

nem estava atrás do seu cavalo de madeira,

nem perto da televisão…

Como não encontrou a sua querida almofada, lá se convenceu que tinha mesmo que ir dormir sem ela.

Pediu outra almofada ao pai e, quando ele lha levou, fez um ar de grande satisfação. Lá se deitou mas, ao contrário do que o pai previra, não havia jeito de adormecer. É que aquela almofada era muito diferente da outra… muito mais alta e ela gostava tanto da sua.

Mas o cansaço acabou por se impor e a menina adormeceu para uma longa noite de sono reparador.

A primeira coisa que a Cecília fez quando acordou foi voltar a procurar a sua almofadinha querida. Foi difícil, mas lá a encontrou. Na brincadeira, tinha caído para trás do sofá. Era um sítio escondido, inacessível, e isso explicava que na noite anterior não a tivesse visto.

Abraçou-a e deixou-se ficar assim durante um bocado.

Quando a mãe a chamou para tomar o pequeno-almoço, a Cecília foi ao seu quarto e poisou a sua almofada, muito direitinha, sobre a cama. É que se gostava de andar com a almofada durante o dia, ela fazia-lhe mesmo muita falta era à noite. Disse-lhe «até logo» e dirigiu‑se à cozinha.

A mãe perguntou-lhe se tinha achado a almofada.

– Achei. – disse a Cecília. – Estava na sala, atrás do sofá.

– Ainda bem. – disse a mãe, que perguntou a seguir:

– Então onde é que ela está agora?

– Está na minha cama… para não se perder.

– Olha, lá é que ela está bem. Parece que aprendeste uma lição…

E a mãe sorriu, com um ar enigmático.

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Cecília e Sissi

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O quarto da Cecília está cheio de peluches por todo o lado: dois ursos, um gato branco, um tigre, um leopardo, dois pandas brancos e pretos, uma vaca, uma galinha colorida, um coelho castanho, um grande rato cinzento, uma boneca pequena de roupa e cabelos de lã vermelha, e outros mais.


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A menina gosta muito dos seus peluches e brinca muito com eles. Os tios e avós costumam dar-lhos quando ela faz anos ou pelo Natal. No dia em que soprou as quatro velas no seu bolo de aniversário, recebeu dois peluches novos – um leão e outro panda com um filhote.

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Aqueles peluches, que eram novidade lá em casa, foram ocupar os lugares do quarto de que todos os peluches gostavam mais: junto da caminha da menina. Os que antes ocupavam aquele lugar foram empurrados para mais longe. É preciso dizer que, longe da caminha da menina, os peluches ficavam com um ar mais triste. Todas as noites a Cecília escolhia um peluche para levar para o quentinho da sua cama e adormecia agarrada a ele. Nas primeiras noites calhou aos novos essa sorte mas depressa deixaram de ser novidade.

Quando a menina não estava no quarto havia grande agitação entre os peluches, todos procurando um lugar que atraísse a sua atenção quando voltasse.

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Muitas vezes, depois de vir do Jardim-de-infância, ia brincar com eles. Era uma alegria para os peluches. Mas havia uma boneca que parecia não partilhar de toda aquela alegria. Ficava no canto mais escondido do quarto, sozinha e triste, com um olho de vidro já sem brilho (o outro já faltava), os cabelos compridos de um lado e curtos do outro. O seu vestido tinha perdido a cor. Já há muitos meses que não era escolhida para dormir com a menina e nem sequer para partilhar as brincadeiras com os outros. Estava mesmo triste, no meio da agitação que havia no quarto.


De repente, fez-se muito silêncio. A menina acabava de chegar a casa e dirigia-se ao seu quarto. Trazia um avião de papel na mão e foi mostrá-lo aos peluches que estavam perto da sua camita. Depois explicou-lhes que aquilo voava. Achou que os peluches não acreditavam no que ela lhes dizia e atirou-o.

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Não voou muito bem e foi aterrar na cama, mesmo perto dela. Nenhum peluche se riu mas a menina percebeu que estavam cheios de vontade. Foi buscá-lo e atirou-o de novo.

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Desta vez o avião voou mesmo e foi aterrar no canto mais longe e ficou no colo da boneca. A Cecília correu a buscar o avião e, quando o agarrou, reparou na Sissi, a sua boneca grande, com aquele ar triste, de boneca abandonada. Pegou nela ao colo e esqueceu o avião.

Passado um pouco de tempo, sentou-a numa pequena cadeira de plástico e foi à cozinha buscar umas bolachas. Sentou-se na outra cadeira, ofereceu uma bolacha à Sissi e foi mordiscando as outras. Foi também buscar duas chávenas e um bule do seu conjunto de brincar e serviu um chá, recomendando à boneca para ela beber com cuidado e não se queimar.

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Depois do chá e das bolachas, estava a calçar as suas pantufas dos ursos, para ficar mais confortável, quando se lembrou de qualquer coisa. Levantou-se e pôs a boneca ao seu lado. Sorriu e disse: – Olha, anda ver.

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Com a boneca ao colo, correu até à sala onde havia uma fotografia das duas. A Sissi era, naquela fotografia, uma boneca muito linda, com um vestido cheio de cor, belos cabelos compridos, uns olhos brilhantes e, sobretudo, era mais alta do que a Cecília, que a abraçava com ar muito feliz.

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Brincaram juntas o resto da tarde.

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À hora do jantar, quando a mãe chamou, foram as duas. A mãe reparou nelas e disse:

– Nunca mais cosi o olho à boneca mas pode ser hoje.

Mal acabou de jantar e enquanto a Cecília continuava a comer – é preciso que se diga que a Cecília demora sempre muito tempo a comer – a mãe foi buscar o estojo de costura e lá encontrou o olho, que coseu no sítio de onde se soltara. A boneca ficava agora com melhor aspecto. A mãe virou-a para a Cecília e perguntou à filha:

– Ainda te lembras quando cortaste o cabelo à Sissi? Cortaste também o teu. Tive que te cortar todo o cabelo muito curto. Até te ficava bem… as avós é que ficaram muito tristes.

– Corta também à Sissi. – pediu a Cecília.

– Já que estou com a tesoura na mão, pode ser.

Depois do corte do cabelo, para ficar todo igual, e de mais alguns pequenos retoques, a boneca ficou engraçada.

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– Agora vamos lavar os dentes que são horas de ir para a caminha. – disse a mãe, e acrescentou: – Já estou a ver quem vai ser hoje a tua companhia.

Dentes lavados, a Cecília vestiu o pijama. Achou que a boneca também devia tirar aquela roupa para dormir e pediu à mãe uma roupa para a Sissi. A mãe foi buscar uma linda camisa interior com flores bordadas, que já não servia à menina mas que à boneca ficava um espanto.

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E a Cecília adormeceu, feliz, abraçada à Sissi que estava de novo com um ar alegre que tinha perdido há muito tempo.

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(Esta história escrevi-a quando a minha filha tinha 4 anos e ilustrei-a com uns desenhos dos seus peluches para dar a forma de livro ilustrado. Claro que a menina gostou. )

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As mentiras do vento


A Cecília gosta muito de ouvir histórias. A toda a hora está a pedir ao pai ou à mãe que lhas contem.

Não se importa de ouvir as mesmas histórias vezes sem conta mas os pais é que protestam quando têm que ler a mesma outra e outra vez.

Naquele dia havia uma feira do livro na praça. O pai viu ali uma boa oportunidade de encontrar novas histórias e não ter que contar sempre as mesmas.

No fim da tarde, quando o calor já era mais suportável, foram passear até à feira do livro. Depois de uma tarde sufocante, levantara-se um pouco de vento.

Foi uma visita demorada… havia tanta coisa interessante para ver… tantos livros cheios de imagens bonitas ou de histórias que a Cecília tinha pena de ainda não saber ler mas que imaginava interessantes.

O pai comprou alguns livros dos muitos que folheou. Na banca ao lado havia livros abertos, a estimular a curiosidade das pessoas que passavam. A menina reparou que as páginas iam virando, como se alguém invisível estivesse a ler. Noutra banca, mais livros estavam a ser folheados. Que engraçado!

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À noite, depois do pai lhe contar uma história nova, a Cecília estava com dificuldades em adormecer. O calor era tanto que o pai deixara a janela aberta. As cortinas, que dançavam uma dança alegre, convidavam-na a juntar-se a elas. Levantou‑se da cama e foi até à janela.

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Olhou a paisagem: muitas luzes distantes brilhavam no escuro. A Cecília teve dificuldade em perceber quais daquelas luzes eram estrelas e quais tinham outras origens. O vento, que entrava pela janela, brincava com o cabelo da menina. Baixinho, ao ouvido, contou‑lhe histórias de terras distantes que conhecera, de longas viagens que fizera, de ilhas tropicais por onde se demorara, de terras sequiosas a que levara nuvens com a chuva desejada, de outras gentes que visitara, de animais estranhos que afagara… Como a Cecília gostava daquelas histórias… ficou toda a noite a ouvir o que vento lhe sussurrava ao ouvido. Gostava delas mas… sabia que era tudo mentira. O vento conhecia tantas histórias porque tinha estado a folhear os livros que estavam nas bancas da feira e tinha lido todas aquelas histórias cheias de imaginação.

De manhã acordou, fresca que nem uma alface, e ficou sem conseguir distinguir aquilo que na realidade tinha acontecido do que fizera, apenas, parte dos seus sonhos.

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