Fábula para maiores de dezoito anos e crianças inteligentes

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Numa reserva natural

Algures (em Portugal)

Era tempo de eleições,

Um tempo de ilusões.

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Qualquer bicho percebia

Que a situação não ia

Tão bem como outrora

(e já não era de agora)

.

E se tudo estava mal

Mudar era essencial…

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Havia duas propostas

Que pareciam opostas,

Descritas em termos latos.

E eram dois os candidatos:

O coelho e o urso.

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Muito hábil no discurso,

Quando o debate surgiu,

O coelho concluiu:

«Todos temos de ajudar

Só eu posso liderar.

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O urso gosta é de mel…

Não cumpre bem o papel.

E eu cá só como erva

Sou o melhor para a reserva».

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Os animais convencer

Foi fácil, fez-se eleger.

Mas se era bom a falar

Não se via melhorar

A situação da reserva.

Até pagavam a erva

Que antes havia a rodos

E sempre fora de todos.

Imagem colhida em http://www.imagensdeposito.com/tags/1/wallpaper+de+coelho.html

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O urso, pois que perdera,

Ainda nada dissera.

(estaria a hibernar?

Saíra para apanhar ar?)

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E os pobres animais

Esses não podiam mais,

Que o coelho exigia

Muito mais do que havia.

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Tinha amigos com poder

E eram mais três a comer…

Engordava o gato bravo

Mais a cobra e o lobo.

E estes, os que lucravam

Com o que os outros poupavam,

Detinham-se a elogiar:

«Tudo está a melhorar…»

.

Tinham mais um aliado

Que aparecia em qualquer lado

E com todos convivia:

O que a toupeira escrevia

Tornava-se, no jornal,

A verdade oficial

E quem caía em desgraça

Era “bicho de má raça”.

E tudo o que sugeria

– «Corte-se tal regalia» –

Era logo posto em prática

Na situação já dramática

E tudo se complicava…

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Mas se alguém se queixava

Era logo apontado,

Era logo acusado

De não estar a ajudar,

De só querer prejudicar

O esforço comunitário,

De piorar o cenário.

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E se alguém contestava,

Logo uma fera rosnava.

Calava-se o desordeiro,

Que até parecia um cordeiro.

Reforçava o seu poder

O coelho, estão a ver?

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E andava a bicharada

Cada dia mais calada.

Até que um pequeno rato

Constatou, um dia o facto:

«Está a reserva estragada.

Afinal não mandas nada,

Não passas de um fantoche!»

«Que infâmia, que deboche!

Nunca fui tão ultrajado»

Diz o coelho, inflamado.

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Foi o rato para a prisão.

«Se tu me deres permissão,

Eu livro-te desse traste,

Antes que o problema alastre.

Engolia-o dum travo.»

Sugeriu o gato bravo.

E o ratito sumiu,

Nunca mais ninguém o viu.

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Nos elogios, a esmo,

Que fazia a si mesmo,

O líder dramatizava

E, solene, afirmava

Com ar triste e infeliz:

«Ninguém louva o que fiz…

Há tanto bicho ingrato.»

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Foi-se perdendo o recato

E o lobo nem disfarça,

Já farto daquela farsa,

Já dá ordens diretas,

Ordens nem justas nem retas,

E ai de quem desobedeça,

Ai de quem não agradeça…

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O coelho e os parceiros,

O trio de interesseiros,

Vivem todos regalados

Cada vez mais anafados.

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Para o resto da bicharada

Já não sobra quase nada.

E nem se podem queixar…

Pode o trio não gostar.

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Cresce a revolta surda,

Pela situação absurda:

Governa quem eles não queriam,

Em quem nunca votariam.

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Vai ficando evidente

Que quem manda realmente

É o trio apoiante

E o coelho bem-falante

Que elegeram, afinal,

Tem papel ornamental.

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Reinam as indecisões:

Não há fáceis soluções,

Talvez outra liderança

Facilite a mudança.

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Têm que ser realistas

Não há respostas simplistas,

Mas se todos trabalharem

Se todos colaborarem…

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Talvez, querem acreditar,

Se cada qual ao votar

Pensar pela sua cabeça

Algo de bom aconteça…

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Mas cuidado, que as toupeiras

Não fazem, interesseiras,

Críticas imparciais

E não são todos iguais

Os que querem liderar…

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É preciso acautelar:

Bichos de falinhas mansas

Querem é encher as panças.

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Bicho que queira mandar

Não basta saber falar.

Tem que mostrar ter jeito

E ser bicho de respeito;

Tem que ter ideias novas;

Tem que ter já dado provas

De amor ao território

E um trabalho meritório.

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Por isso, antes de votar,

Cada qual deve pensar,

Com uma só influência:

A sua própria consciência…

 
João Alberto Roque

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Esta foi uma fábula que escrevi há uns meses (junho ou julho) mas que me parece cada vez mais atual.

Qualquer semelhança com factos ou pessoas reais poderá não ser pura coincidência. Aliás, acontecimentos recentes parecem dar maior sustentação ao enredo… E estamos cada vez mais enredados.

Também a nível local, algo que aconteceu nesta quarta feira, na minha cidade (Gafanha da Nazaré) me deixou-me preocupado, por sentir que as pessoas, mesmo as que têm mais responsabilidades, não conseguem ser verdadeiramente independentes e livres para decidir em consciência.

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Uma história mal contada

Amigo visitante, sinto que estou em dívida para contigo, depois de tanto tempo sem te dar a merecida atenção, a ti que não me regateias a tua. Por isso, trago-te uma história um pouco longa e em verso. Diverti-me a escrevê-la. Espero que a sua leitura te dê o mesmo gozo!

Por questões técnicas é-me, de momento, impossível colocar a versão ilustrada da história, mas fica a promessa de que aqui será disponibilizada.

Fiquem então com…

Uma história mal contada

Há histórias que fazem parte do nosso imaginário colectivo
e que moldaram a nossa percepção da realidade.
A fábula da Lebre e da Tartaruga é uma dessas histórias.

E se La Fontaine foi induzido em erro
ou foi cúmplice de uma tramóia bem montada?

Os autores do presente texto, usando de ironia e humor,
vêm apresentar o resultado de uma aturada investigação,
onde demonstram que houve fraude e que, afinal,
a fábula da Lebre e da Tartaruga foi…

Uma história mal contada.

Os autores:
André Lebre e Ana Tartaruga


Dedico esta história – a verdadeira –

A todas as crianças que gostam de ler

E aos adultos com sentido de humor refinado.

La Fontaine, desculpa lá a brincadeira:

Adulterei a tua fábula, que é bonita a valer

E não tens culpa, porque foste enganado…


Agradeço às minhas fontes de inspiração:

Às socialites e a quem vai atrás do foguetório,

E, claro, aos jornalistas, juízes e advogados,

Aos políticos pouco sérios (felizmente excepção)

E aos homens do desporto que têm no repertório

Muitos modos diferentes de falsear resultados…


O caso que vos vou descrever

Passou-se há muitos e muitos anos

No estranho mundo dos animais…

Caso que nunca poderia acontecer

No mundo tão certo dos humanos

Onde ninguém engana os demais.


Tudo começou numa entrevista:

A Tartaruga, mediática e famosa,

Contava, ao pormenor, a sua vida.

Além da foto, na capa da revista,

Havia uma frase curta e poderosa

«Desafio a Lebre para uma corrida».


A Tartaruga, que tinha fama de ser lenta,

Queria mudar esse aspecto negativo:

Nada melhor do que desafiar a Lebre

O animal mais rápido da floresta

Mas um bicho assustadiço e esquivo

Que raramente saía do seu casebre.


A Lebre viu ali uma boa oportunidade

Por isso, como se sabe, aceitou o desafio

E declarou ao Papagaio jornalista:

«Ninguém me vence em velocidade».

Aprazaram a corrida, que seria junto ao rio,

Um local aprazível para servir de pista.


No dia previsto e à hora combinada,

Manhã cedo, já a Lebre aquecia

Os músculos das pernas e das costas.

Para ver a celebridade, a bicharada

Juntara-se onde a Tartaruga chegaria

E cada um fazia as suas apostas.


Como a sua especialidade é dar nas vistas

A Tartaruga nunca da pompa prescinde:

Pegou em dois copos que ela mesma encheu

– Há que evitar situações imprevistas -,

Deu um copo à Lebre e propôs um brinde:

«E que ganhe a melhor, ou seja… eu».


Após uma curta sessão de autógrafos,

O canto do galo deu o sinal de partida

– Sabem que os tiros assustam os animais.

Acompanhadas por jornalistas e fotógrafos,

Largaram. Claro que a Lebre saiu rápida

E a outra lenta – os seus estilos habituais.


A bicharada ansiosa esperava as velocistas

– Àquele ritmo, a Lebre já devia ter chegado –

De olhos na meta, estranhavam a demora.

Deveras admirados estavam os jornalistas

E conjecturavam o que se teria passado,

Que a partida fora há mais de uma hora.


Para a história ficou a fotografia

– Uma cena estranha e caricata

Divulgada em revistas e jornais:

À sombra duma árvore, a Lebre dormia

E a Tartaruga passava rumo à meta

(E fotografias não mentem, são reais).


A multidão já aplaudia a bicha célebre.

Sob a algazarra, a outra despertou

E, ainda tonta, correu como uma seta.

Mas chegou demasiado tarde, a Lebre

– A bicharada toda em coro a assobiou –

Que a Tartaruga já tinha passado a meta.


A façanha, a lenda, a bela história

Da Tartaruga correu mundo e encantou.

E ela – com um sorriso de orelha a orelha

Pois ficara muito bem na fotografia –

Sim, só ela sabia que a Lebre falhou

Sob o efeito da poção da amiga Abelha.

Ilustração original de Rute Freire e Alexandre Freire

Fraude perfeita? Não! Algo correu mal.

Um Ratito viu tudo e – finório – percebeu:

A Abelha a vender a poção para dormir;

A Tartaruga a deitá-la no copo da rival.

Esta bebeu e, durante a prova, adormeceu

E a outra, vagarosa, passou por ela a sorrir.


O Ratito, pensativo, até roía as unhas:

Para repor a justiça teria que acusar

Uma personagem com grande influência,

Sem quaisquer provas nem testemunhas.

Para divulgar o que vira, teria que usar

Toda a sua perspicácia e prudência.


Escrever uma carta anónima foi a solução…

Dirigida ao empenhado jornalista

A relatar o que vira, de forma precisa.

Este achou que, se não era só imaginação,

Havia ali assunto a não perder de vista

E começou a preparar a sua pesquisa.


O jornalista confrontou, com tais questões,

A Tartaruga que o olhava de soslaio.

A ilustre visada, ofendida, negou o facto.

Achando-se intocável, imune a suspeições,

Cometeu o erro de humilhar o Papagaio,

Chamando-lhe incompetente, fala-barato.


A notícia não tardou a vir a público

– a bicharada sedenta de emoções –

E descobriu-se uma vida escandalosa.

Desde que o credível Papagaio abriu o bico

Sucederam-se, em catadupa, as revelações.

Para começar houve uma ajuda preciosa:


Séria e tendo que manter a reputação

De especialista em doces e venenos,

A doutora Abelha, envolvida por abuso,

Revelou que a tartaruga pedira a poção

Porque andava a dormir bastante menos

E afirmara ser para seu próprio uso.


Tal como a Tartaruga corpulenta,

A mentira tem pernas curtas e baixo nível

E foi no tribunal que o caso foi disputado,

Mas, como a ré, a justiça é muito lenta

E tem uma carapaça quase intransponível

Se há alguém rico e poderoso implicado.


A Tartaruga sempre foi um animal

– não se esqueçam – muito influente

Dá-se com bestas capazes do pior

E, claro, o caso prescreveu no tribunal.

A Tartaruga continua, indiferente

Na sua carapaça, a achar-se a maior.


É esta a única e verdadeira história,

Contada com todo o rigor e boa-fé

Sem quaisquer enfeites nem fantasias.

Conseguir contá-la é já uma vitória…

Estranhamente, quão diferente é

A versão que chegou aos nossos dias.


O caso que hoje vos descrevi

Passou-se há muitos e muitos anos

No estranho mundo dos animais…

Caso semelhante nunca eu vi

No mundo tão certo dos humanos

Onde ninguém engana os demais.


A imprescindível Moral da História:

Cuidado! Que as aparências enganam.

Pensem por vós, sem ingenuidade,

E mesmo que pareça luta inglória,

– Mesmo quando muitos vos abandonam –

Escolham sempre o lado da verdade.

João Alberto Roque

 

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