O Mar

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Andava deprimida… o trabalho sugava-me a energia… parecia que jamais sairia debaixo daquela pilha de tarefas… Uma delas levou-me à Barra. Saber o mar ali tão próximo avivou-me as saudades. Estacionei. Não podia perder tempo, mas também não consegui resistir ao apelo do mar ali tão próximo. Fui ao seu encontro…

O mar – as suas ondas ritmadas – transmitia serenidade.

Aquela visão dava uma escala diferente àquilo que me esperava no emprego.

Descalcei-me, seguindo pela areia, mais leve a cada passo que dava… O mar, ao molhar-me os pés, dissolveu o que restava de problemas. Sorri, renovada… e feliz.

…….

Há algum tempo participei num grupo no facebook (Cem Palavras: Desafio de Escrita Criativa) em que éramos convidados a escrever textos com exatamente cem palavras (drabbles), com base num tema dado. Hoje deparei com este no meu computador e resolvi colocá-lo no blogue. O tema era “Mar”. O narrador é feminino em função da imagem que usei na altura.

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Uma história de Natal

A mais bela prenda que o menino recebeu

– Uma história de Natal

Aquela era uma noite muito fria. A pequena aranha estava encolhida numa trave que suportava o telhado esburacado do velho barracão que servia de estábulo a uma vaca.

Nessa noite havia mais três ocupantes – um casal e o burro que transportara a mulher.

Pouco depois a mulher deu à luz. Dar à luz era mesmo a expressão mais adequada pois, no exato momento em que o menino nascia, no céu surgia uma luz nova: uma estrela mais brilhante do que as outras que cintilavam na noite.

Havia também uma música – parecia o som de muitas flautas – que a aranha nunca tinha ouvido. Seria o vento a assobiar entre os ramos das árvores e os buracos do telhado?

Os pastores das redondezas vieram ver o que havia naquele estábulo e merecia estes sinais do céu. Enternecidos com o que viam, deixaram algumas prendas: mantas feitas com a lã das suas ovelhas, que eles próprios usavam para se protegerem do frio da noite. A aranha teve pena de nada ter para oferecer.

Na completa escuridão, a chuva caía por um buraco e batia nas traves, molhando tudo.

A aranha podia abrigar-se noutro local. Era mesmo o que ia fazer quando reparou que quem estava lá em baixo não tinha como escapar aos salpicos. Tinha descoberto a prenda que podia dar ao menino…

Escolheu o local em que o telhado estava mais roto, por onde entravam grossos pingos de chuva e o vento frio assobiava. A cortina de fios ia crescendo e começava a cumprir o seu papel…

A aranha continuava na sombra a trabalhar, com a mestria das suas oito patas, os finos fios que prendia ora no telhado ora nas traves mais distantes. Era um trabalho paciente, demorado.

O menino pareceu perceber o esforço que a aranha fazia para lhes dar mais conforto e levantou o bracito num aceno de agradecimento.

Nesse momento, pela abertura do telhado, entrou a luz da nova estrela que surgira no céu. Uma luz fraca, mas que fez brilhar os fios que a aranha ia tecendo numa linda teia.

José e Maria, extenuados pela longa viagem e pela infrutífera procura de alojamento condigno na cidade de Belém, já dormiam. Só o menino, o burrito e a vaca puderam assistir, deslumbrados, à magnífica obra de arte feita pela inspirada aranha.

A aranha trabalhara quase dois dias sem parar, mas o sorriso do menino tinha sido recompensa suficiente para o seu esforço.

Passados uns dias, chegaram a Belém uns estranhos viajantes, guiados pelos sinais dos céus. Os visitantes eram homens sábios e ricos que viram na nova estrela a indicação de que nascera o Messias esperado, e dirigiram-se ao velho estábulo – um local inesperado para o nascimento de tão importante personagem.

Deixando as numerosas comitivas que os acompanhavam, os reis desceram dos seus enfeitados camelos e cavalos e entraram no estábulo.

Os reis magos traziam belos presentes: ouro, incenso, mirra… e exibiam-nos. A pobre aranha nem sabia o que era aquilo, mas percebia que era algo valioso. Estava contente por aquele menino receber tão ricas prendas, de homens tão poderosos e tão sábios que vieram de tão longe guiados pela estrela, mas, ao mesmo tempo, um pouco triste por não ter mais para oferecer ao menino que a sua teia feita com aqueles fios sem qualquer valor.

Também percebia que os reis ofereciam aqueles presentes para mostrar a sua própria importância… e ela era só uma pequena aranha.

O menino era também pequenino, mas muito, muito especial. Parecendo perceber o que ia no coração daqueles reis, o que queriam mostrar com aquelas prendas; entendendo o que a aranha sentia, levantou o bracito, a apontar o alto. Os olhos de todos levantaram-se ao mesmo tempo que as nuvens se abriam e a luz entrou, mais viva do que antes, pelo teto esburacado. Ouviu-se um coro de espanto ao verem a teia toda iluminada… pequenas gotas de água refletiam a luz… um espetáculo nunca visto.

– Nem a mais prendada bordadeira do meu reino era capaz de fazer um bordado tão belo. – disse um dos reis.

– Nem a melhor tecedeira faria tão fino tecido. – acrescentou outro.

– Nem o melhor dos meus ourives faria tão valiosa filigrana. – completou o terceiro.

Após uns momentos de admiração, os três sábios, em coro, concluíram:

– Este menino é verdadeiramente filho de Deus!

Os reis magos foram embora, mas nunca mais esqueceram tudo o que viram…

 

Desde esse tempo, os amigos de Jesus jamais deixaram de iluminar o Natal com imensas luzes, longos fios entrançados cheios de pequenas lâmpadas, iluminações com muitas formas e cores, mas… nenhuma iguala, em beleza e graciosidade, aquela teia de aranha.

Teia 2

Quando em 2009 pensei em colocar algo no blogue pelo Natal apercebi-me que nunca tinha escrito uma história de Natal. Foi dessa constatação que nasceu o conto que agora reduzi significativamente para ser publicado no Jornal Timoneiro. Foi apresentada, também este ano, na atividade “Chá de Letras” subordinada ao tema “Natal”, com alunos do sétimo ano e respetivos encarregados de educação. A nova dimensão do conto tornou viável ser publicado também neste blogue.

Em tempos, sonhei publicar um livro, mas sem ilustrações a condizer não fazia sentido. Quem sabe um dia a versão mais longa venha a ser publicada.

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Crepúsculo

Crepúsculo
 

Todos os fins de tarde, Lúcia ia até a esplanada junto ao farol e ficava a ler até quase serem horas de o sol se esconder no horizonte. Depois levantava-se, caminhava até à Meia-laranja, vivia o pôr-do-sol e permanecia ali todo o tempo que durava o crepúsculo, vendo as cores quentes do horizonte a diluírem-se no azul gradualmente mais frio e mais escuro. Regressava a casa, com uma lágrima ao canto do olho, já a escuridão tomara conta do céu.

Era um hábito que mantinha religiosamente. Ao início ainda lhe parecia sentir na sua, a mão de Fernando, mas com o passar do tempo e o avolumar da solidão, o crepúsculo cada vez se tornava um momento mais penoso, por força das recordações contraditórias.

Felizmente a vida de Fernando não tivera um crepúsculo. Fora uma luz que se apagara bruscamente, traído pelo coração que sempre estivera disponível para a amar. Lúcia não sofrera ao vê-lo sofrer. Sofria agora a sua ausência.

Quantas vezes, desde que se conheceram, naquele local e àquela hora que dispensa o relógio, o pôr-do-sol e o crepúsculo que lhe sucedia tinham sido ocasião para celebrar a vida. Quantas revelações, quantas decisões felizes, tinham tido por cenário aquele mesmo local e aquela hora mágica. Foi também ali que Fernando a pediu em casamento e ela prontamente lhe disse que sim; ali decidiram que ficariam para sempre a viver na Barra; ali ele ficou a saber que ia ser pai; …

Os anos passaram. Viram os filhos crescer. Viram-nos partir, primeiro Tomé e depois Cristina, para construírem a vida longe dos pais.

Quantas vezes Lúcia e Fernando voltaram àquele lugar, na transição do dia para a noite, para se deixarem encantar pela beleza sempre renovada daqueles instantes. O marulhar das ondas e os gritos das gaivotas que se estendiam pelo areal constituíam a banda sonora desses momentos de felicidade.

Lúcia nasceu longe dali, num vale encaixado entre montanhas, que o sol iluminava apenas quando já ia alto no céu e o ocaso não tinha por companhia aquelas cores que a viriam a fascinar.

Foi nas primeiras férias na praia que se apaixonou pelo pôr-do-sol sobre o mar, pelo crepúsculo.

Havia sempre gente que passeava por ali, mas Lúcia reparou num jovem, apaixonado como ela por aquele fim da tarde e que, tal como ela, escolhera a Meia‑laranja para o admirar. Olhavam inicialmente na mesma direção, mas acabaram por olhar também um para o outro. As férias terminaram com eles de mãos dadas, enamorados um do outro e com uma paixão comum por aquele espetáculo de luz.

Lúcia levara, como sempre, um livro, mas estava incapaz de ler. O tom dramático da filha, deixara-a preocupada. Perdera o emprego e não estava a conseguir outro que lhe permitisse sobreviver, continuar a pagar a renda de casa, … Viria acolher-se na casa da mãe, se ela não se importasse.

Lúcia nem pensou duas vezes. Claro que a filha e o neto eram era bem‑vindos.

Enquanto caminhava rumo à Meia-laranja, Lúcia ia tensa. Na memória tinha algumas discussões antigas com a filha e temia que o convívio forçado, sobretudo numa fase difícil da vida de Cristina – o divórcio primeiro, o desemprego depois – gerasse novas fricções.

Sentou-se no muro da meia-laranja e olhou o céu. A obra de arte que tinha na sua frente, com cores inimitáveis, e em suave mutação, teve o dom de a acalmar. Pensou que, pelo menos, não estaria mais sozinha. Aprenderiam a viver juntas.

Cristina depressa encontrou um emprego. Era mal pago e tinha um horário que seria impossível de aceitar se não contasse com a ajuda da mãe para ir buscar o neto à escola e dar-lhe o jantar.

Lúcia ficou maravilhada com a inteligência e com a sensibilidade do rapazinho.

Ali estava ela, na esplanada do costume, à hora do costume. Diferente era o livro que levava e… a companhia. Leu-lhe uma história infantil.

Depois o passeio até à Meia Laranja. Lúcia e Fernando, de mão dada.

Ficaram em silêncio olhando o pôr-do-sol. Lúcia recordou-se das primeiras vezes que o apreciara. Nos olhos fixos e maravilhados do neto reviu os do seu amado.

– Ó avó, sabes que o teu nome significa luz? – disse ele com um brilho dourado nos olhos azuis e entusiasmo na voz.

– Sim, sei. E tu, sabes que tens o nome de um grande homem?

– Sim, o do avô Fernando.

Fernando olhava, deslumbrado, as cores do crepúsculo que se iam desvanecendo.

Lúcia reencontrara, na beleza daquele ocaso e na companhia do neto, a paz de espírito de que precisava para não mais sentir a solidão, a escuridão que se segue a cada crepúsculo.

 

imagem colhida em http://www.facebook.com/photo.php?fbid=3518316407738&set=o.159495297397563&type=1&relevant_count=1

 

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Histórias de Ensinar

O livro Histórias de Ensinar, publicado pela Raiz Editora em E-book, em formato pdf, está disponível para leitura / download no site da editora.

Trata-se de uma coletânea de histórias contadas por professores e educadores, na sequência de um passatempo promovido no facebook.

A minha participação chama-se Pais e filhos e está na página 46. Podes ler aqui

Histórias de ensinar

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Pais e filhos

Ensinar

 

Ainda não tinha dado aqui a novidade… o meu conto “Pais e filhos” foi selecionado para publicação no Passatempo “Histórias de Ensinar”, da Raiz Editora. Podes ler aqui.
Nota: apesar de continuar a dizer “vote na sua favorita” já acabou o período destinado às votações.

Nas imagens abaixo encontras outros textos (três poemas e três contos) que foram publicados em livro (o último está em processo de publicação no Brasil e na Itália, mas pode ser lido no site do concurso onde foi selecionado).

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Novo conto publicado

O  meu conto “O rio corria calmo – Uma história de violênciaintegrado no  livro 39 Poemas & Contos contra o Racismo, já está disponível. Podes lê-lo, e guardá-lo em formato pdf (começa na página 116) em http://www.acidi.gov.pt/_cfn/532b149cb464c/live/39+Poemas+e+Contos+Contra+o+Racismo

O rio corria calmoImagem que acompanha o meu conto

Mas antes de leres o meu, lê o conto “Nyambura” (página 98). Endereço os meus parabéns a Ana Paula Oliveira, autora desta história notável.

Agora vou começar a ler os restantes textos publicados.

Brevemente esta obra estará disponível em papel, numa edição não destinada a ser comercializada.

Nas imagens abaixo encontras outros textos que foram publicados em livro (ou estão em processo, sempre longo, de publicação).

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39 Poemas & Contos contra o Racismo

O livro “39 Poemas & Contos contra o Racismo”, que inclui (na página 116) o meu conto O rio corria calmo – Uma história de violência, será lançado digitalmente no site www.acidi.gov.pt, no dia 21 de março, no âmbito das comemorações do Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial e do Dia Mundial da Poesia.

Será realizada brevemente uma cerimónia para o lançamento do livro em papel, mas a versão em pdf está acessível, na íntegra, aqui.

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