Poema do coração – António Gedeão

O professor Rómulo de Carvalho, que ficou mais conhecido pelo seu pseudónimo literário António Gedeão, foi o autor dos compêndios (manuais escolares) que usei no meu ensino secundário. Tem por isso a sua quota parte de responsabilidade de eu ser professor na área das ciências. Mas, certamente, António Gedeão tem ainda mais de eu gostar de poesia. Poemas como a Pedra Filosofal ou a Lágrima de Preta, entre tantos outros, marcaram o meu gosto e o meu conceito de poesia. Deixo-vos com outro desses poemas. Afinal, hoje passei horas a falar do coração (mas não com o coração nas mãos, que isso fica para a aula prática, passe o jogo de palavras) com os alunos que do nono, quer do décimo ano.

Poema do coração

Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração.
Então poderia dizer-vos:
“Meus amados irmãos,
falo-vos do coração”,
ou então:
“com o coração nas mãos”.

Mas o meu coração é como o dos compêndios.
Tem duas válvulas (a tricúspida e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue ao circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados,
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz dos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então, meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

É preciso algum conhecimento científico para o perceber… Já vi tanta barbaridade escrita sobre este poema.

Mesmo assim, embora isso seja irrelevante ou eventualmente propositado por parte do poeta, é preciso que se diga que há uma pequena incorreção científica… Afinal a especialidade era a física e não a biologia. A relação causa-efeito está invertida em: “O sangue ao circular contrai-os e distende-os…”

Interessante a constatação do controlo do sistema nervoso (neste caso o S. N. Autónomo “Simpático”) sobre o coração.Talvez possa ser interpretado como a (infeliz?) supremacia da razão sobre o sentimento, mas sinceramente, isso é mesmo importante?

Quantas vezes, na tentativa de “dissecar” um poema, acabam por “matá-lo”?

coração

Poderás também gostar de ler estas Infantilidades:

Poesia na cidade 2  Herberto  Alice Vieira 2  Nós somos do mundo  O riocorria calmo  pais e filhos   

ou ir para o início.

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