Prémio Literário Hernâni Cidade

O Prémio Literário Hernâni Cidade é uma iniciativa anual da Câmara Municipal de Redondo, através da sua Biblioteca.

Na edição de 2010 a modalidade foi poesia e os trabalhos (um conjunto de três sonetos) tinham que ser subordinados ao tema: Venho brincar aqui no Português, a língua – uma frase do conhecido escritor moçambicano Mia Couto, retirada da sua crónica Perguntas à língua portuguesa. Essa crónica foi o ponto de partida para escrever o poema Mia Couto. Outro poema começa com o tema proposto: Venho brincar aqui no Português, a língua… O terceiro tem como título Unidiversidade uma palavra inventada, ao estilo do autor moçambicano.

A cerimónia de entrega dos prémios será no dia 23 do Outubro. Neste caso a organização não me fez sofrer como nos dois prémios anteriores (Trofa e Madeira) e já sei que ganhei o primeiro prémio.

ESCREVER

Venho brincar aqui no Português

Venho brincar aqui no Português,
a língua dos meus pais e minha, agora,
herança a que acedi e assim me fez
irmanado a milhões, pelo mundo fora.

Espaço de orgulho e altivez,
onde se ouve uma voz livre e sonora.
Lugar de diversão, sem timidez,
não vive já dos feitos de outrora.

E os poetas que brincam com os sons,
alegres companheiros no recreio,
partilham todos deste devaneio:

de tornar, cada qual com os seus dons,
nossa língua um local acolhedor;
nossa pátria mais rica… e maior.

Mia Couto

Sim, amigo, obrigado pelas lições.
Matámos a galinha por um ovo…
é preciso avivar, erguer de novo,
brincar, criar, fazer brincriações.

Ajudaste a sonhar colorações
no planeta dormente onde me movo,
recriaste a língua com o povo,
recreaste a língua em diversões.

Recuperaste até antigos brilhos
(e os ovos de ouro brilham mais
se reflectem o brilho dos demais),

trouxeste alegria a nossos filhos,
cor aos planetas já entorpecidos …
Seja a língua carícia em teus ouvidos!

Unidiversidade

Nascemos em países tão distantes
mas nossas falas, na diversidade,
brincam juntas em tal intimidade
nesse encontro, são línguas de amantes.

Belo festim de sons com cambiantes,
poetas burilando a claridade.
Tantas faces não quebram a unidade,
mas reflectem a luz, são diamantes.

Perceber-te não é grande façanha:
posso achar a pronúncia estranha,
pode o vocabulário divergir…

– Adorei, foi gostoso o cafuné
– Se pensas que eu não sei o que isso é…
Percebi, não precisas traduzir.

Poema adicionado mais tarde:

Redondamente grato

Vim, feito às no volante, da Gafanha
Dessas terras do mar, terras da ria
Impregnadas do cheiro a poesia
Trazer algo da minha arte e manha

E acho que cometi uma façanha:
Dum oceano que é lusofonia
Eu trago um ritmo doce a maresia
(É o balanço do mar que a gente ganha)

Às terras aprazíveis do Redondo.
Às gentes que me calam cá no fundo
Manifesto-me grato, sobretudo…

Com o meu couro pouco cabeludo
Brilhando ao calor dos holofotes…
Grato por revelardes os meus dotes.

Este último poema li-o na cerimónia de entrega dos prémios. Resolvi brincar com as palavras e deixar bem claro de onde ia, já que a organização escreveu no site em que anunciou os premiados que eu era da Nazaré.  Sou da cidade da Gafanha da Nazaré – terra do mar, terra da ria – bem perto de Aveiro.

Poderás também gostar de ler estas Infantilidades:

ou ir para o início.


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