Uma história mal contada

Amigo visitante, sinto que estou em dívida para contigo, depois de tanto tempo sem te dar a merecida atenção, a ti que não me regateias a tua. Por isso, trago-te uma história um pouco longa e em verso. Diverti-me a escrevê-la. Espero que a sua leitura te dê o mesmo gozo!

Por questões técnicas é-me, de momento, impossível colocar a versão ilustrada da história, mas fica a promessa de que aqui será disponibilizada.

Fiquem então com…

Uma história mal contada

Há histórias que fazem parte do nosso imaginário colectivo
e que moldaram a nossa percepção da realidade.
A fábula da Lebre e da Tartaruga é uma dessas histórias.

E se La Fontaine foi induzido em erro
ou foi cúmplice de uma tramóia bem montada?

Os autores do presente texto, usando de ironia e humor,
vêm apresentar o resultado de uma aturada investigação,
onde demonstram que houve fraude e que, afinal,
a fábula da Lebre e da Tartaruga foi…

Uma história mal contada.

Os autores:
André Lebre e Ana Tartaruga


Dedico esta história – a verdadeira –

A todas as crianças que gostam de ler

E aos adultos com sentido de humor refinado.

La Fontaine, desculpa lá a brincadeira:

Adulterei a tua fábula, que é bonita a valer

E não tens culpa, porque foste enganado…


Agradeço às minhas fontes de inspiração:

Às socialites e a quem vai atrás do foguetório,

E, claro, aos jornalistas, juízes e advogados,

Aos políticos pouco sérios (felizmente excepção)

E aos homens do desporto que têm no repertório

Muitos modos diferentes de falsear resultados…


O caso que vos vou descrever

Passou-se há muitos e muitos anos

No estranho mundo dos animais…

Caso que nunca poderia acontecer

No mundo tão certo dos humanos

Onde ninguém engana os demais.


Tudo começou numa entrevista:

A Tartaruga, mediática e famosa,

Contava, ao pormenor, a sua vida.

Além da foto, na capa da revista,

Havia uma frase curta e poderosa

«Desafio a Lebre para uma corrida».


A Tartaruga, que tinha fama de ser lenta,

Queria mudar esse aspecto negativo:

Nada melhor do que desafiar a Lebre

O animal mais rápido da floresta

Mas um bicho assustadiço e esquivo

Que raramente saía do seu casebre.


A Lebre viu ali uma boa oportunidade

Por isso, como se sabe, aceitou o desafio

E declarou ao Papagaio jornalista:

«Ninguém me vence em velocidade».

Aprazaram a corrida, que seria junto ao rio,

Um local aprazível para servir de pista.


No dia previsto e à hora combinada,

Manhã cedo, já a Lebre aquecia

Os músculos das pernas e das costas.

Para ver a celebridade, a bicharada

Juntara-se onde a Tartaruga chegaria

E cada um fazia as suas apostas.


Como a sua especialidade é dar nas vistas

A Tartaruga nunca da pompa prescinde:

Pegou em dois copos que ela mesma encheu

– Há que evitar situações imprevistas -,

Deu um copo à Lebre e propôs um brinde:

«E que ganhe a melhor, ou seja… eu».


Após uma curta sessão de autógrafos,

O canto do galo deu o sinal de partida

– Sabem que os tiros assustam os animais.

Acompanhadas por jornalistas e fotógrafos,

Largaram. Claro que a Lebre saiu rápida

E a outra lenta – os seus estilos habituais.


A bicharada ansiosa esperava as velocistas

– Àquele ritmo, a Lebre já devia ter chegado –

De olhos na meta, estranhavam a demora.

Deveras admirados estavam os jornalistas

E conjecturavam o que se teria passado,

Que a partida fora há mais de uma hora.


Para a história ficou a fotografia

– Uma cena estranha e caricata

Divulgada em revistas e jornais:

À sombra duma árvore, a Lebre dormia

E a Tartaruga passava rumo à meta

(E fotografias não mentem, são reais).


A multidão já aplaudia a bicha célebre.

Sob a algazarra, a outra despertou

E, ainda tonta, correu como uma seta.

Mas chegou demasiado tarde, a Lebre

– A bicharada toda em coro a assobiou –

Que a Tartaruga já tinha passado a meta.


A façanha, a lenda, a bela história

Da Tartaruga correu mundo e encantou.

E ela – com um sorriso de orelha a orelha

Pois ficara muito bem na fotografia –

Sim, só ela sabia que a Lebre falhou

Sob o efeito da poção da amiga Abelha.

Ilustração original de Rute Freire e Alexandre Freire

Fraude perfeita? Não! Algo correu mal.

Um Ratito viu tudo e – finório – percebeu:

A Abelha a vender a poção para dormir;

A Tartaruga a deitá-la no copo da rival.

Esta bebeu e, durante a prova, adormeceu

E a outra, vagarosa, passou por ela a sorrir.


O Ratito, pensativo, até roía as unhas:

Para repor a justiça teria que acusar

Uma personagem com grande influência,

Sem quaisquer provas nem testemunhas.

Para divulgar o que vira, teria que usar

Toda a sua perspicácia e prudência.


Escrever uma carta anónima foi a solução…

Dirigida ao empenhado jornalista

A relatar o que vira, de forma precisa.

Este achou que, se não era só imaginação,

Havia ali assunto a não perder de vista

E começou a preparar a sua pesquisa.


O jornalista confrontou, com tais questões,

A Tartaruga que o olhava de soslaio.

A ilustre visada, ofendida, negou o facto.

Achando-se intocável, imune a suspeições,

Cometeu o erro de humilhar o Papagaio,

Chamando-lhe incompetente, fala-barato.


A notícia não tardou a vir a público

– a bicharada sedenta de emoções –

E descobriu-se uma vida escandalosa.

Desde que o credível Papagaio abriu o bico

Sucederam-se, em catadupa, as revelações.

Para começar houve uma ajuda preciosa:


Séria e tendo que manter a reputação

De especialista em doces e venenos,

A doutora Abelha, envolvida por abuso,

Revelou que a tartaruga pedira a poção

Porque andava a dormir bastante menos

E afirmara ser para seu próprio uso.


Tal como a Tartaruga corpulenta,

A mentira tem pernas curtas e baixo nível

E foi no tribunal que o caso foi disputado,

Mas, como a ré, a justiça é muito lenta

E tem uma carapaça quase intransponível

Se há alguém rico e poderoso implicado.


A Tartaruga sempre foi um animal

– não se esqueçam – muito influente

Dá-se com bestas capazes do pior

E, claro, o caso prescreveu no tribunal.

A Tartaruga continua, indiferente

Na sua carapaça, a achar-se a maior.


É esta a única e verdadeira história,

Contada com todo o rigor e boa-fé

Sem quaisquer enfeites nem fantasias.

Conseguir contá-la é já uma vitória…

Estranhamente, quão diferente é

A versão que chegou aos nossos dias.


O caso que hoje vos descrevi

Passou-se há muitos e muitos anos

No estranho mundo dos animais…

Caso semelhante nunca eu vi

No mundo tão certo dos humanos

Onde ninguém engana os demais.


A imprescindível Moral da História:

Cuidado! Que as aparências enganam.

Pensem por vós, sem ingenuidade,

E mesmo que pareça luta inglória,

– Mesmo quando muitos vos abandonam –

Escolham sempre o lado da verdade.

João Alberto Roque

 

Poderás também gostar de ler estas Infantilidades:

  MV  Cecília e Sissi

ou ir para o início.


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3 Respostas

  1. Olá João Alberto,

    Após algum tempo sem espreitar estas suas deliciosas “infantilidades”, passei por cá e fiquei satisfeita com o que vi. Adorei a criativa recriação da fábula de La Fontaine, que achei muito bem feita e também algumas das várias poesias, que espero vir a utilizar em contexto de sala um dia destes…

    Vou linkar o Infantilidades no bloguefólio, para não me esquecer de espreitar mais vezes…

    Já agora obrigada por ter inserido o Pré Histórias no seu Top 10 e pelo simpático comentário no Bloguefólio.

    Cumprimentos e até breve!

  2. Gostei muito da “história mal contada”!
    Com muito humor, retrata bem La Fontaine!
    Parabéns.

  3. Amigas Juca e Isabel

    É muito motivador receber comentários simpáticos como os vossos, sobretudo vindo de quem tem uma presença tão assídua e enriquecedora na blogosfera.
    A quem ler este comentário sugiro uma visita aos blogues:
    http://historiasparapre.blogspot.com
    e
    http://isabelpreto.blogspot.com/

    Obrigado e voltem sempre.

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