Era uma noite tenebrosa, de tempestade, e algures no Pacífico, uma jovem sardinha, a Miquelina, brincava na crista das ondas.
Ribombava a trovoada na atmosfera, um espectáculo de clarões e luzes que ela admirava. Gostava de aventura e de se divertir, embora os seus pais a avisassem para ter cuidado com os vários perigos do mar, como predadores, poluição e pescadores, mas a sardinha não prestava muita atenção, porque achava que era demasiado nova para se preocupar muito com isso

http://artigo126.blogspot.com/2010/05/vida-da-sardinha.html
A sardinha conseguia vislumbrar a ténue luz da Lua, meio coberta pelas nuvens, e no meio da obscuridade, ela viu uma sombra volumosa no horizonte, que se agigantava na sua direcção.
Não coube em si de curiosidade e nadando agilmente, aproximou-se dela. Ficou muito admirada com o que viu. Parecia-se mais ou menos com uma baleia, mas tinha algo diferente de todas as que vira até então. Para começar, tinha um comportamento estranho: nadava à superfície e praticamente não se mexia, mas para o tamanho que tinha, rasgava as ondas com uma facilidade notável. Pensou no que havia de fazer. Queria muito saber o que era aquilo, por isso, com algum receio, decidiu tocar-lhe. Sentiu uma superfície dura, lisa, desgastada e com alguns arranhões. Afastou-se alguns metros com receio de ter sido notada, mas a criatura parecia ignorá-la. Continuava a pensar no que havia de fazer, quando ouviu alguém a chamá-la:
– Miquelina! Miquelina
Voltou-se e reconheceu Jonas, um velho peixe-palhaço do seu recife.
– Que é? – perguntou ela, aborrecida.
– Afasta-te dessa coisa!
Ela virou-se de novo para aquela coisa gigantesca, e perguntou, cheia de esperanças:
– Sabes o que …
– Andei à tua procura durante muito tempo! – interrompeu ele. – Não devias andar aqui a estas horas! Os teus pais estão preocupados. Vem para casa, que se faz muito tarde e aqueles palermas dos irmãos Atum andam por aí a verificar se está toda a gente em casa. Se eles reparam que faltas, fazem mal à tua família!
– Está bem! Está bem! Mas ao menos diz o que é!
– É uma criatura diabólica. Já vi muitas delas na minha vida: aparecem com frequência por estes mares e só trazem morte e destruição! Cala-te e anda, antes que nos ma…
Uma onda violenta embateu no barco, e com a forte sacudidela, caíram vários barris de lixo tóxico transportados pelo gigante, perto dos dois.
A Sardinha esbugalhou os olhos quando viu aqueles objectos a boiar à superfície. Deles saia um líquido verde brilhante que os envolveu rapidamente
Jonas, espantado, exclamou:
– Foge!
Nadaram para o fundo o mais rápido possível. Demasiado atordoada para dizer alguma coisa, a pequena limitou-se a seguir Jonas, mas começava a sentir-se mal e acabou por desmaiar.
Quando acordou de manhã, estava em casa. Chamou pelos pais, que vieram ter com ela.
– Que é que se passou? – perguntou.
– O Jonas contou-nos. O que aconteceu é que te andas a meter em aventuras, e agora isto… Ao menos estás bem?
– Bem, acho que sim. Sinto-me muito melhor.
De repente, ouviram um grito e a sardinha foi ver quem era. Eram os dois irmãos Atum, mafiosos que estavam a trabalhar para o Silvério, o maior criminoso da área (e ao mesmo tempo o mais pequeno, porque era um camarão). Gostavam de controlar a vida dos outros peixes, e se eles não estivessem no recife na hora do recolher obrigatório, poderiam comê-los!
– Vai-te esconder! – ordenou o pai.
Ela foi-se esconder atrás de umas algas, enquanto os brutamontes falavam com os pais. A certa altura, ela viu que a coisa ia dar para o torto, e para proteger os pais, encheu‑se de coragem, e lançou-se ao Atum mais próximo. Surpreendentemente, quando se deu o embate, o Atum foi atirado para trás com uma força tremenda, contra um rochedo.
Um velho polvo que ia a passar perto, apanhou um grande susto e exclamou:
– Uuuuuuups! Borrei-me!
– Badalhoco! Sujaste-me todo com tinta! – exclamou o Atum, que desmaiou logo de seguida. O outro ficou tão espantado com a força desmedida da sardinha, que se acobardou e fugiu.
Ela ficou assombrada com o seu próprio poder. Foi falar com Jonas, que estava em casa a descansar, e contou-lhe o que tinha acontecido. No fim, perguntou-lhe:
– Também conseguiste super-poderes?
– Não, só consegui cancro!
No dia seguinte, ao almoço, voltou a ouvir-se barulho na vizinhança. A sardinha pensou se seriam os Atuns outra vez. Desta vez não tinha medo, por isso foi inspeccionar o que se passava. Quando saiu de casa, viu Silvério e o seu poderoso aliado, Joaquim, o grande tubarão branco.
– Então és tu que agrides os meus peixes? Não passas de um bicho insignificante! – troçou o pequeno mafioso.
– Olha quem fala, minorca! – retorquiu Miquelina.
O camarão, furioso, gritou:
– Ai é? Já vais ver! Joaquim, destrói esta criatura insolente!
O tubarão atacou a sardinha, tentando mordê-la, mas ela esquivou-se facilmente. A sardinha não perdeu tempo e investiu sobre o adversário com toda a força. O tubarão resistiu e tentou devorar a pequena, mas ela lançou-se mais uma vez e mandou-o contra o chão, derrotando o monstro.
Cansada, olhou para Silvério, que estava boquiaberto, e disse-lhe bem alto:
– Queres alguma coisa? Parto-te todo, palhaço!
– Que é? – perguntou Jonas, que tinha acabado de sair de casa.
– Desculpa, não estava a falar para ti!
O camarão cobarde aproveitou para fugir, enquanto ninguém estava a olhar, e nunca mais foi visto nos arredores. Fizeram uma festa em honra da heroína e toda gente ficou a saber a história de Miquelina, a Super-sardinha.
David Roque
Como foi referido no “post” anterior, o David ganhou o primeiro prémio no X Concurso Literário Jovem, uma iniciativa da Câmara Municipal de Ílhavo. Depois de a sua “Super História” – onde brinca com os heróis dos desenhos animados/banda desenhada – ter conseguido o terceiro prémio em 2010, agora voltou a concorrer com outra história onde uma apresenta uma insuspeita super-heroína: Miquelina, a “Super Sardinha”.
Parabéns, (Super-)David.
Poderás também gostar de ler estas Infantilidades:
ou ir para o início.
Filed under: contos Tagged: | conto, histórias, infantil, literatura, Prémio literário

