
O quarto da Cecília está cheio de peluches por todo o lado: dois ursos, um gato branco, um tigre, um leopardo, dois pandas brancos e pretos, uma vaca, uma galinha colorida, um coelho castanho, um grande rato cinzento, uma boneca pequena de roupa e cabelos de lã vermelha, e outros mais.

A menina gosta muito dos seus peluches e brinca muito com eles. Os tios e avós costumam dar-lhos quando ela faz anos ou pelo Natal. No dia em que soprou as quatro velas no seu bolo de aniversário, recebeu dois peluches novos – um leão e outro panda com um filhote.

Aqueles peluches, que eram novidade lá em casa, foram ocupar os lugares do quarto de que todos os peluches gostavam mais: junto da caminha da menina. Os que antes ocupavam aquele lugar foram empurrados para mais longe. É preciso dizer que, longe da caminha da menina, os peluches ficavam com um ar mais triste. Todas as noites a Cecília escolhia um peluche para levar para o quentinho da sua cama e adormecia agarrada a ele. Nas primeiras noites calhou aos novos essa sorte mas depressa deixaram de ser novidade.
Quando a menina não estava no quarto havia grande agitação entre os peluches, todos procurando um lugar que atraísse a sua atenção quando voltasse.

Muitas vezes, depois de vir do Jardim-de-infância, ia brincar com eles. Era uma alegria para os peluches. Mas havia uma boneca que parecia não partilhar de toda aquela alegria. Ficava no canto mais escondido do quarto, sozinha e triste, com um olho de vidro já sem brilho (o outro já faltava), os cabelos compridos de um lado e curtos do outro. O seu vestido tinha perdido a cor. Já há muitos meses que não era escolhida para dormir com a menina e nem sequer para partilhar as brincadeiras com os outros. Estava mesmo triste, no meio da agitação que havia no quarto.
De repente, fez-se muito silêncio. A menina acabava de chegar a casa e dirigia-se ao seu quarto. Trazia um avião de papel na mão e foi mostrá-lo aos peluches que estavam perto da sua camita. Depois explicou-lhes que aquilo voava. Achou que os peluches não acreditavam no que ela lhes dizia e atirou-o.

Não voou muito bem e foi aterrar na cama, mesmo perto dela. Nenhum peluche se riu mas a menina percebeu que estavam cheios de vontade. Foi buscá-lo e atirou-o de novo.

Desta vez o avião voou mesmo e foi aterrar no canto mais longe e ficou no colo da boneca. A Cecília correu a buscar o avião e, quando o agarrou, reparou na Sissi, a sua boneca grande, com aquele ar triste, de boneca abandonada. Pegou nela ao colo e esqueceu o avião.
Passado um pouco de tempo, sentou-a numa pequena cadeira de plástico e foi à cozinha buscar umas bolachas. Sentou-se na outra cadeira, ofereceu uma bolacha à Sissi e foi mordiscando as outras. Foi também buscar duas chávenas e um bule do seu conjunto de brincar e serviu um chá, recomendando à boneca para ela beber com cuidado e não se queimar.

Depois do chá e das bolachas, estava a calçar as suas pantufas dos ursos, para ficar mais confortável, quando se lembrou de qualquer coisa. Levantou-se e pôs a boneca ao seu lado. Sorriu e disse: – Olha, anda ver.

Com a boneca ao colo, correu até à sala onde havia uma fotografia das duas. A Sissi era, naquela fotografia, uma boneca muito linda, com um vestido cheio de cor, belos cabelos compridos, uns olhos brilhantes e, sobretudo, era mais alta do que a Cecília, que a abraçava com ar muito feliz.

Brincaram juntas o resto da tarde.

À hora do jantar, quando a mãe chamou, foram as duas. A mãe reparou nelas e disse:
- Nunca mais cosi o olho à boneca mas pode ser hoje.
Mal acabou de jantar e enquanto a Cecília continuava a comer – é preciso que se diga que a Cecília demora sempre muito tempo a comer – a mãe foi buscar o estojo de costura e lá encontrou o olho, que coseu no sítio de onde se soltara. A boneca ficava agora com melhor aspecto. A mãe virou-a para a Cecília e perguntou à filha:
- Ainda te lembras quando cortaste o cabelo à Sissi? Cortaste também o teu. Tive que te cortar todo o cabelo muito curto. Até te ficava bem… as avós é que ficaram muito tristes.
- Corta também à Sissi. – pediu a Cecília.
- Já que estou com a tesoura na mão, pode ser.
Depois do corte do cabelo, para ficar todo igual, e de mais alguns pequenos retoques, a boneca ficou engraçada.

- Agora vamos lavar os dentes que são horas de ir para a caminha. – disse a mãe, e acrescentou: – Já estou a ver quem vai ser hoje a tua companhia.
Dentes lavados, a Cecília vestiu o pijama. Achou que a boneca também devia tirar aquela roupa para dormir e pediu à mãe uma roupa para a Sissi. A mãe foi buscar uma linda camisa interior com flores bordadas, que já não servia à menina mas que à boneca ficava um espanto.

E a Cecília adormeceu, feliz, abraçada à Sissi que estava de novo com um ar alegre que tinha perdido há muito tempo.

(Esta história escrevi-a quando a minha filha tinha 4 anos e ilustrei-a com uns desenhos dos seus peluches para dar a forma de livro ilustrado. Claro que a menina gostou. )
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