Uma agradável surpresa

Uma das coisas boas de ser professor – eu diria mesmo a melhor – passa por conhecer alunos com muito valor. Felizmente tenho conhecido vários, ao longo destes anos.


Ainda esta semana tive o grato prazer de ler um texto – 45 páginas muito bem escritas – de um aluno, agora com 17 anos, que já andava há dois anos a escrevê-lo. Revela uma cultura e uma maturidade que são pouco habituais num aluno da sua idade.

Vê-se que, além da inspiração e do trabalho de construção de um enredo bem elaborado e com capacidade de surpreender, houve ali muito trabalho de burilação do texto: tantas páginas sem um erro, sem uma estrutura frásica menos cuidada.

Se insistir e se a vida lhe der as oportunidades que merece, temos um futuro bom escritor.

Força Victor! Obrigado por me dares a felicidade de ser surpreendido de forma tão agradável.


Também sei que não são coisas que aconteçam a todos os professores… Tem que se “estar lá” quando é preciso.

Talvez para um professor de Português isso seja quase uma obrigação… para mim, que sou de Biologia e Geologia, é apenas uma enorme satisfação.

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Barco de papel

Deste-me um barco de papel
Mas muito mal aparelhado
Não tem bússola nem tem leme
Tem só um mapa desenhado

Que me diz que siga o rumo
Que nasce no meu coração
Tenho medo de me perder
(Eu sei pouco de navegação)

E estamos no mesmo barco
- Senão porque sorriria? -
Ainda bem seguro no cais
Com amarras de poesia

Fizeste de mim capitão
Deste sonho desta esquadra
Mas é tempo de partida
Desta linha, nesta quadra

Não vês como és cruel?
Vês-me prestes a naufragar
E dás-me um barco de papel
A mim… que não sei nadar.


Este é um poema que escrevi em Dezembro de 2006 e que tinha ficado guardado até hoje, na gaveta do meu computador.

Lembro-me agora que o li, entre vários outros, à minha turma do 12º E da altura – uma daquelas aulas de sexta-feira ao fim da tarde em que a capacidade de dos alunos de estarem envolvidos nos conteúdos do programa se acabava mais depressa que o normal…

Houve uma aluna que gostou e me pediu para copiá-lo… Hoje encontrei-o, por acaso no facebook dela. Provavelmente já não se lembrava da sua origem e por isso não refere o autor, mas eu… lembrei-a, colocando a versão completa.

Como já veio a público… publico-o aqui também. Espero que gostem tanto como a Daniela – por sinal também eu gosto muito de vários textos dela que fui lendo – e alguns visitantes que o leram no seu facebook.

Obrigado também… à pessoa extraordinária que me deu o tal barco de papel.

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Uma sucessão de acasos?

Andava a algum tempo a evitar colocar algo de novo no blogue mas hoje (afinal, o relógio diz que já foi ontem…) tive uma conversa com a responsável de uma biblioteca escolar, onde entrei por mero acaso, que, sem o saber, me motivou a ligar ao editor do “Pirilampo e dos deveres da escola”.
Não faz sentido o livro estar esgotado… Gostei da conversa. Espero que venha a ter frutos.

Estas duas conversas já tiveram pelo menos um efeito em mim… tirar-me de um certo desânimo em que andava, relativamente à escrita.

Uma sucessão de acasos?

Outra conversa interessante que hoje aconteceu foi com uma amiga que já não via há imenso tempo, considerando que até vivemos relativamente perto um do outro… não sei bem se conversei com a arquitecta se com a artista plástica, mas espero ter dado um pequeno empurrão à escritora… espero que arquitecte uma boa história que possa, depois, ser bem ilustrada pela pintora de créditos já firmados.

Para acabar o dia, uma surpresa na Internet, mas dessa… falo no próximo post…

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Boas Festas

Aos visitantes do “Infantilidades”, de todas as idades, desejamos uma entrada em grande num ano que se espera melhor para todos.

Que o espírito solidário da quadra Natalícia se estenda a todos e torne o nosso mundo um pouco melhor.

Um poema de Natal

Como se aproxima o Natal, pensei em colocar algo relacionado com esta data festiva.

Nunca escrevi nenhuma história de Natal mas lembrei-me deste poema que escrevi há alguns anos.

Espero que entendam a mensagem: o Natal celebra o nascimento de Jesus Cristo. A personagem central do Natal é então o menino Jesus. Actualmente, nem sempre é fácil percebê-lo.


Pelo Natal


Recordo com saudade aqueles Natais

que celebravam o nascimento de um petiz.

Um momento tão marcante e tão feliz

passado numa cabana pobre de animais.


Eram pobres as prenditas que me dava

o menino Jesus, nos Natais da meninice:

um doce e algo útil. Mesmo que não pedisse

ele sabia sempre do que eu mais precisava…


E que podia eu esperar receber mais

de um menino muito mais pobre do que eu,

de um menino que eu sabia que nasceu

tão pobre numa cabana de animais?


Era um tempo muito belo mas modesto:

as roupas partilhadas com os manos,

os brinquedos, simples, duravam anos…

A imaginação e o engenho faziam o resto.


Hoje é diferente e faz-me certa confusão

que o Natal, que era outrora de um menino,

seja hoje de um velho abastado e fino

que publicita as suas prendas na televisão.


O Pai-Natal impôs-se no nosso imaginário…

Um menino pobre numa cabana de animais,

não encaixa bem nos propósitos comerciais,

como explicaria qualquer bom publicitário.


Recordo com saudade aqueles Natais…

As imagens deste post foram retiradas de  www.postais.net

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A canção da bicharada

Na sequência do texto anterior, também este foi feito para a ópera infantil baseada no meu livro “Pirilampo e os deveres da escola” e como expliquei no post anterior, perdeu-se na rede…

Apenas mantive parte do título da proposta inicial e que acabou por ser a apresentada em público.

Espero que gostes.

Imagem retirada de

http://www.baixakijogos.com.br/wii/animal-crossing-city-folk/previa/3347.html


Vem cantar à desgarrada

A canção da bicharada

Um, dois, três

É agora a tua vez:


A vaca dá leite branco

Ó que grande disparate…

Sabe bem que eu prefiro

Com sabor a chocolate.


O coelho é desconfiado

E que bem que ele ouve…

Adora trincar cenouras

E umas folhinhas de couve.


O gato faz companhia,

brincadeiras divertidas.

Sobe a muros e telhados

Pensa que tem sete vidas…


Vem cantar à desgarrada

A canção da bicharada

Um, dois, três

É agora a tua vez:

O galo no seu poleiro

Canta alto e bom som

Acordando a bicharada

Sem nunca fugir do tom.

A galinha poedeira

Põe o ovo no seu ninho

Para depois o chocar

E nascer um pintainho.

Da raposa não se gosta

Na escola e nos galinheiros

Mas apenas na floresta

Entre urzes e pinheiros.

Vem cantar à desgarrada

A canção da bicharada

Um, dois, três

É agora a tua vez:


O leão, na selva, é rei

Dá rugidos de tremer

E quem o vê mais por perto

Foge logo, a correr.


O elefante é trombudo

com a mania de meter

A sua tromba em tudo

E nunca mais esquecer.

A girafa é só pescoço!

Tem altura e nada mais

Mas olha sempre de cima

Para os outros animais.

Vem cantar à desgarrada

A canção da bicharada

Um, dois, três

É agora a tua vez


A borboleta esvoaça

Entre as ervas e as flores

Está a mostrar, vaidosa,

As asas de lindas cores.


A formiga trabalhava

Não gostava de cantar

Aprendeu com a cigarra

Passa a vida a assobiar.


O mosquito toda a noite

Vem zumbir-me ao ouvido

E não me deixa dormir…

É um bichinho atrevido.


Vem cantar à desgarrada

A canção da bicharada

Um, dois, três

É agora a tua vez


O canário está alegre

Na sua farda amarela

Canta sempre e encanta

Com a sua voz tão bela


A coruja pia triste

Mas nunca perde o pio

Sem bela voz não desiste

De cantar ao desafio


Devia saber o mocho

Que a noite é para dormir

E o dia, enquanto há sol,

É para brincar, para rir…

imagem retirada de http://webrowse.webuzz.im/wp/archives/pt/0vuzD0e0/

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Canção de embalar

O gatinho

Dorme, meu menino! Dorme! Dorme bem

Sonha com o gatinho. Miau, miau, miau, miau.

Ele é tão fofinho e amigo também.

E mia, meiguinho: miau, miau, miau, miau.

Tem um bom soninho! Dorme! Dorme bem

Se a luz do sol finda não é para assustar-te…

Há mil pirilampos que, à noite, acendem

A sua luz tão linda, só para iluminar-te.

Dorme, meu menino! Dorme! Dorme bem

Sozinho não ficas, eu estarei contigo.

Se queres sonhos lindos, tens de dormir bem

E depois já brincas com o teu novo amigo.


Fiz este texto e outros como sugestão de alteração aos textos usados na ópera infantil que teve como ponto de partida o meu livro “Pirilampo e os deveres da escola”, levada à cena pelo Coro dos Pequenos Cantores da Trofa. Na troca de mensagens de correio electrónico as minhas sugestões perderam-se e não chegaram ao destinatário pelo que não foram utilizados nesse trabalho e apenas agora são dados a conhecer. Um texto para uma canção de embalar que nunca chegou a casar com a respectiva música.

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Cecília e Sissi

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Um poema de Hélder Ramos

O Hélder Ramos comentou o “caderno de poesia” com este belo poema.

Não resisti a colocá-lo em lugar de maior destaque.

Obrigado amigo, em meu nome e de todos os visitantes destas “Infantilidades”.

.

AS CRIANÇAS

Sabem mais do que é infindo
E não se perde na noite do sono

Saltam vivas como nuvens que correm
No céu dos sonhos que crescem
Alegres e livres enfim

Nos dias que não trazem medos

E agarram os sóis a duas mãos
Que guardam como segredos

Imagem colhida em http://vitrinedabene.blogspot.com


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Testamento Poético em linguagem prosaica

.

Estando em estado de lucidez e de perfeito juízo

Ainda na posse de todas as minhas faculdades

E porque a ninguém pretendo causar prejuízo

Neste documento declaro as minhas vontades

A poesia será partilhada como um todo indiviso

Será sempre uma garantia e espaço de liberdades

Se alguém a quiser vender, o preço é um sorriso

Aceitem-na, para combater tiranias e falsidades

Porque na poesia o amor é cada vez mais preciso

Perderá a sua parte quem a usar para maldades

E será excluído deste testamento tão conciso

Quem usar esta herança para criar desigualdades

Capa da colectânea… edição da Câmara Municipal de Ovar

Concorri com este poema, escrito em 2006, ao concurso «Dar voz à poesia» desse ano. Foi seleccionado para publicação e recebi o livro há poucos meses.

Foi a única edição a que concorri, incentivado pelo meu amigo Hélder Ramos, autor com obra poética publicada (livro «Ao pé das palavras» que tive o prazer de prefaciar) e que nesta IV colectânea tem quatro belos poemas.

Apesar deste meu poema não ter sido escrito para crianças, não me pareceu despropositado colocá-lo neste blogue.

Espero que tu, amigo leitor, aceites o meu legado e possas tu também «Dar voz à poesia».

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TOP 10 Infantilidades – número 1

Há algum tempo resolvi colocar na barra da direita o

TOP 10 Infantilidades.

Claro que notei que alguns visitantes do “Infantilidades” visitaram os blogs ou sites que eu sugeri mas menos do que a qualidade das histórias justificaria. Assim passo a apresentar cada um deles começando pelo primeiro da lista (renovada).

Top-1http://historiasparaosmaispequeninos.wordpress.com/

Quem visitar este blogue não se esqueça de que, como na generalidade dos blogues do WordPress, há separadores no topo que deverão ser consultados. Sugiro, especialmente para as crianças, o  que contém a lista das histórias

http://historiasparaosmaispequeninos.wordpress.com/caixinha-das-historias/

e, para os adultos, também os textos de reflexão.

http://historiasparaosmaispequeninos.wordpress.com/textos-de-reflexao/

Aproveitem as minhas sugestões… verão que não dão o tempo por perdido.

E voltem sempre…

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MV CP Cecília e Sissi

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Um susto de história com uma bruxa feia e um gato preto

A noite estava completamente escura mas não chovia… A temperatura até estava quente para a época, mas o gato preto estava enroscado perto do lume. Dormitava. De vez em quando abria um olho a controlar os movimentos da dona.

A fraca luz, na cozinha de paredes escurecidas pelo fumo, não deixava ver grande coisa, mas os gestos – à custa de tantas repetições – já quase podiam ser feitos de olhos fechados.

A velhinha, completamente vestida de negro, entoava a sua cantilena, enquanto mexia o conteúdo da panela enegrecida pelo fumo da lenha.

Estás a imaginar a cena, não estás? O que tu não imaginarias – nem ela, provavelmente – é que, nas redondezas, uma figura baixota, atarracada, mas com um chapéu enorme que parecia fazê-la mais alta e roupas negras que praticamente a tornavam invisível no negro da noite se encaminhava para sua casa e estava, aliás, já ali bem perto.

O chapéu em cone, de abas largas e de cor também negra; as roupas que vestia e sobretudo aquela cara, em que não faltava um nariz disforme, onde saltava à vista uma verruga – Sim! Tinha uma enorme verruga no nariz – a vassoura que trazia numa das mãos e arrastava pelo chão… não havia engano possível… quem se aproximava, a coberto da noite, era uma figura verdadeiramente sinistra.

Dentro de casa, calmamente, a velhinha lançava na panela uma pequena quantidade de algo que tirara de um dos frascos alinhados no aparador perto de si – uma medida sabiamente afinada pela experiência de muitos anos.

A sobrepor-se aos fracos sons que resultavam dos gestos tantas vezes repetidos e à sua voz ainda melodiosa, ouviram-se cinco fortes pancadas na porta.

O gato abriu os olhos, levantou-se, eriçou os pelos, arqueou a coluna e saltou na direcção donde viera aquele barulho que o incomodara no seu sono. A velhinha, sobressaltada, calou-se e parou de mexer a panela negra de onde saíam abundantes vapores e, penosamente, dirigiu-se à porta.

As mãos da simpática velhinha tremiam… e não era de frio.

Como já te contei, a temperatura até estava agradável…

O quê! Pensavas que era uma bruxa? Embora pudesse parecer, não! Não era uma bruxa! Era mesmo apenas uma velhinha que, com mão trémula, abriu a porta devagar…

Olhou a bruxa nos olhos – olhos que mal se viam na carantonha horrível…

Esta sim, era uma bruxa! Aquela cara feiosa, com a enorme verruga no nariz – também ele bastante avantajado e adunco – e um ar malévolo era, sem ponta de dúvida, a de alguém que queria assustar, que queria que ninguém tivesse dúvidas de que estava na presença de uma bruxa má.

A velhinha, com uma voz onde o susto parecia genuíno, perguntou:

- Porque é que tens uma cara tão feia?

- É para te pregar um susto! Um susto tão, tão grande…

E a bruxa esticava os braços, num gesto sugestivo, a ameaçar a velhinha de horrores enormes.

- Só escapas se me deres já… aquilo que já sabias que eu hoje… cá viria procurar!

E a bruxa entrou pela casa com o ar decidido de quem sabe bem o que quer. Já dentro da casa a sinistra figura pôs a mão à cara horrenda e, determinada, puxou pelo nariz.

Com a outra mão, pegou em algo que os dedos trémulos da velhinha seguravam… e levou à boca. Depois, com a beiça lambuzada do chupa-chupa, deu um beijo doce à avó.

A vassoura, a máscara e o chapéu do disfarce do dia das bruxas lá ficaram, atirados para um canto.

Entretanto a bruxinha notou:

- Cheira bem! Estavas a cozinhar?

- Estou a fazer sopa. Está quase pronta. Queres um pratinho?

- Claro! Isso pergunta-se? A sopa da avó é a melhor do mundo. O resto do chupa fica para depois…

E a menina deu a mão à avó e, seguidas pelo pachorrento gato preto, dirigiram-se à cozinha.

 

 

imagem encontrada em http://filhotesdeborboletas.blogspot.com/

 

 

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Uma história mal contada

Amigo visitante, sinto que estou em dívida para contigo, depois de tanto tempo sem te dar a merecida atenção, a ti que não me regateias a tua. Por isso, trago-te uma história um pouco longa e em verso. Diverti-me a escrevê-la. Espero que a sua leitura te dê o mesmo gozo!

Por questões técnicas é-me, de momento, impossível colocar a versão ilustrada da história, mas fica a promessa de que aqui será disponibilizada.

Fiquem então com…

Uma história mal contada

Há histórias que fazem parte do nosso imaginário colectivo
e que moldaram a nossa percepção da realidade.
A fábula da Lebre e da Tartaruga é uma dessas histórias.

E se La Fontaine foi induzido em erro
ou foi cúmplice de uma tramóia bem montada?

Os autores do presente texto, usando de ironia e humor,
vêm apresentar o resultado de uma aturada investigação,
onde demonstram que houve fraude e que, afinal,
a fábula da Lebre e da Tartaruga foi…

Uma história mal contada.

Os autores:
André Lebre e Ana Tartaruga


Dedico esta história – a verdadeira –

A todas as crianças que gostam de ler

E aos adultos com sentido de humor refinado.

La Fontaine, desculpa lá a brincadeira:

Adulterei a tua fábula, que é bonita a valer

E não tens culpa, porque foste enganado…


Agradeço às minhas fontes de inspiração:

Às socialites e a quem vai atrás do foguetório,

E, claro, aos jornalistas, juízes e advogados,

Aos políticos pouco sérios (felizmente excepção)

E aos homens do desporto que têm no repertório

Muitos modos diferentes de falsear resultados…


O caso que vos vou descrever

Passou-se há muitos e muitos anos

No estranho mundo dos animais…

Caso que nunca poderia acontecer

No mundo tão certo dos humanos

Onde ninguém engana os demais.


Tudo começou numa entrevista:

A Tartaruga, mediática e famosa,

Contava, ao pormenor, a sua vida.

Além da foto, na capa da revista,

Havia uma frase curta e poderosa

«Desafio a Lebre para uma corrida».


A Tartaruga, que tinha fama de ser lenta,

Queria mudar esse aspecto negativo:

Nada melhor do que desafiar a Lebre

O animal mais rápido da floresta

Mas um bicho assustadiço e esquivo

Que raramente saía do seu casebre.


A Lebre viu ali uma boa oportunidade

Por isso, como se sabe, aceitou o desafio

E declarou ao Papagaio jornalista:

«Ninguém me vence em velocidade».

Aprazaram a corrida, que seria junto ao rio,

Um local aprazível para servir de pista.


No dia previsto e à hora combinada,

Manhã cedo, já a Lebre aquecia

Os músculos das pernas e das costas.

Para ver a celebridade, a bicharada

Juntara-se onde a Tartaruga chegaria

E cada um fazia as suas apostas.


Como a sua especialidade é dar nas vistas

A Tartaruga nunca da pompa prescinde:

Pegou em dois copos que ela mesma encheu

- Há que evitar situações imprevistas -,

Deu um copo à Lebre e propôs um brinde:

«E que ganhe a melhor, ou seja… eu».


Após uma curta sessão de autógrafos,

O canto do galo deu o sinal de partida

- Sabem que os tiros assustam os animais.

Acompanhadas por jornalistas e fotógrafos,

Largaram. Claro que a Lebre saiu rápida

E a outra lenta – os seus estilos habituais.


A bicharada ansiosa esperava as velocistas

- Àquele ritmo, a Lebre já devia ter chegado -

De olhos na meta, estranhavam a demora.

Deveras admirados estavam os jornalistas

E conjecturavam o que se teria passado,

Que a partida fora há mais de uma hora.


Para a história ficou a fotografia

- Uma cena estranha e caricata

Divulgada em revistas e jornais:

À sombra duma árvore, a Lebre dormia

E a Tartaruga passava rumo à meta

(E fotografias não mentem, são reais).


A multidão já aplaudia a bicha célebre.

Sob a algazarra, a outra despertou

E, ainda tonta, correu como uma seta.

Mas chegou demasiado tarde, a Lebre

- A bicharada toda em coro a assobiou -

Que a Tartaruga já tinha passado a meta.


A façanha, a lenda, a bela história

Da Tartaruga correu mundo e encantou.

E ela – com um sorriso de orelha a orelha

Pois ficara muito bem na fotografia -

Sim, só ela sabia que a Lebre falhou

Sob o efeito da poção da amiga Abelha.

Ilustração original de Rute Freire e Alexandre Freire

Fraude perfeita? Não! Algo correu mal.

Um Ratito viu tudo e – finório – percebeu:

A Abelha a vender a poção para dormir;

A Tartaruga a deitá-la no copo da rival.

Esta bebeu e, durante a prova, adormeceu

E a outra, vagarosa, passou por ela a sorrir.


O Ratito, pensativo, até roía as unhas:

Para repor a justiça teria que acusar

Uma personagem com grande influência,

Sem quaisquer provas nem testemunhas.

Para divulgar o que vira, teria que usar

Toda a sua perspicácia e prudência.


Escrever uma carta anónima foi a solução…

Dirigida ao empenhado jornalista

A relatar o que vira, de forma precisa.

Este achou que, se não era só imaginação,

Havia ali assunto a não perder de vista

E começou a preparar a sua pesquisa.


O jornalista confrontou, com tais questões,

A Tartaruga que o olhava de soslaio.

A ilustre visada, ofendida, negou o facto.

Achando-se intocável, imune a suspeições,

Cometeu o erro de humilhar o Papagaio,

Chamando-lhe incompetente, fala-barato.


A notícia não tardou a vir a público

- a bicharada sedenta de emoções -

E descobriu-se uma vida escandalosa.

Desde que o credível Papagaio abriu o bico

Sucederam-se, em catadupa, as revelações.

Para começar houve uma ajuda preciosa:


Séria e tendo que manter a reputação

De especialista em doces e venenos,

A doutora Abelha, envolvida por abuso,

Revelou que a tartaruga pedira a poção

Porque andava a dormir bastante menos

E afirmara ser para seu próprio uso.


Tal como a Tartaruga corpulenta,

A mentira tem pernas curtas e baixo nível

E foi no tribunal que o caso foi disputado,

Mas, como a ré, a justiça é muito lenta

E tem uma carapaça quase intransponível

Se há alguém rico e poderoso implicado.


A Tartaruga sempre foi um animal

- não se esqueçam – muito influente

Dá-se com bestas capazes do pior

E, claro, o caso prescreveu no tribunal.

A Tartaruga continua, indiferente

Na sua carapaça, a achar-se a maior.


É esta a única e verdadeira história,

Contada com todo o rigor e boa-fé

Sem quaisquer enfeites nem fantasias.

Conseguir contá-la é já uma vitória…

Estranhamente, quão diferente é

A versão que chegou aos nossos dias.


O caso que hoje vos descrevi

Passou-se há muitos e muitos anos

No estranho mundo dos animais…

Caso semelhante nunca eu vi

No mundo tão certo dos humanos

Onde ninguém engana os demais.


A imprescindível Moral da História:

Cuidado! Que as aparências enganam.

Pensem por vós, sem ingenuidade,

E mesmo que pareça luta inglória,

- Mesmo quando muitos vos abandonam -

Escolham sempre o lado da verdade.

João Alberto Roque

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Prenda para o Pai (ou a Mãe)

Procurei por uma prenda
por algo belo, perfeito.
Olha, Pai, estou sem ideias…
Não achei nada de jeito!

Nada era digno de ti,
de tanto amor que me deste…
dos trabalhos que passaste…
das noites que não dormiste.

Que prenda te posso dar?
Tem de ter um tal valor
que nenhum dinheiro compra…
Aceita o meu amor!

Um abraço, um carinho
e uma pequena lembrança…
É que eu, ao pé de ti,
serei sempre uma criança!

Sem que eu percebesse porquê – afinal é porque o Dia do Pai no Brasil é no segundo Domingo de Agosto – grande parte das visitas recentes através de pesquisas na Net, procuravam por algo relacionado com o “dia do pai”. Resolvi, por isso, colocar este novo texto…

O valor material de uma prenda que qualquer um de nós der ao seu pai, ou à sua mãe, será sempre simbólico perante tanto que deles recebemos (sobretudo os bens  imateriais).


Pequenas lembranças para o pai e para a mãe, à venda no blog de uma amiga:
http://su-artesdecorativas.blogspot.com

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CP

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A almofada desaparecida

A Cecília, ultimamente, andava com um hábito estranho: saía da cama pela manhã e trazia consigo a almofada.

Ia tomar o pequeno-almoço e levava atrás… a almofada.

Ia para a sala brincar e … isso mesmo, não ia sozinha.

A almofada era a sua companhia inseparável.

Imagem retirada do blogue http://ritacor.wordpress.com

Estão a ver o problema? Não?

É claro que, nestas andanças, por vezes esquecia-se da almofada.

Geralmente ficava num lugar bem à vista de todos e a mãe acabava por levá-la para o quarto da Cecília ou mandava-a a ela ocupar-se dessa tarefa o que, claro, não era boa ideia porque lembrava a Cecília do quanto gostava de andar agarrada à almofada e a coisa recomeçava.

Nessa noite quando foi para a cama reparou que faltava a sua querida almofada. Começou por pedir ao pai que fosse buscá-la. O pai, cheio de paciência, lá foi procurar a dita almofada, mas nada… nem sinais dela. Procurou em todos os locais em que a Cecília costumava andar e não a encontrou.

Foi dizer à menina e ela ficou muito triste. O pai lá lhe explicou mais uma vez que o lugar da almofada é na cama e que devia lá ter estado todo o dia à espera. Como a menina teima em andar a passear a almofada pode acontecer uma coisa assim. Depois disse à Cecília, que não se conformava com a falta da almofada, que a fosse ela procurar.

É preciso que se diga que a Cecília, quando chega a hora de ir para a cama, inventa mil desculpas para ficar mais um bocadinho acordada e nesse dia não tinha sido excepção. Já não era nada cedo. Como ainda estava de férias e no dia seguinte não tinha hora marcada para se levantar, o pai não estava muito preocupado, mas sabia que depois de um dia tão animado a garota devia estar cansada.

A Cecília lá correu toda a casa à procura:

a sua almofada não estava em cima da cama dos pais,

nem debaixo da mesa da cozinha,

nem dentro da arca dos brinquedos,

nem estava atrás do seu cavalo de madeira,

nem perto da televisão…

Como não encontrou a sua querida almofada, lá se convenceu que tinha mesmo que ir dormir sem ela.

Pediu outra almofada ao pai e, quando ele lha levou, fez um ar de grande satisfação. Lá se deitou mas, ao contrário do que o pai previra, não havia jeito de adormecer. É que aquela almofada era muito diferente da outra… muito mais alta e ela gostava tanto da sua.

Mas o cansaço acabou por se impor e a menina adormeceu para uma longa noite de sono reparador.

A primeira coisa que a Cecília fez quando acordou foi voltar a procurar a sua almofadinha querida. Foi difícil, mas lá a encontrou. Na brincadeira, tinha caído para trás do sofá. Era um sítio escondido, inacessível, e isso explicava que na noite anterior não a tivesse visto.

Abraçou-a e deixou-se ficar assim durante um bocado.

Quando a mãe a chamou para tomar o pequeno-almoço, a Cecília foi ao seu quarto e poisou a sua almofada, muito direitinha, sobre a cama. É que se gostava de andar com a almofada durante o dia, ela fazia-lhe mesmo muita falta era à noite. Disse-lhe «até logo» e dirigiu‑se à cozinha.

A mãe perguntou-lhe se tinha achado a almofada.

- Achei. – disse a Cecília. – Estava na sala, atrás do sofá.

- Ainda bem. – disse a mãe, que perguntou a seguir:

- Então onde é que ela está agora?

- Está na minha cama… para não se perder.

- Olha, lá é que ela está bem. Parece que aprendeste uma lição…

E a mãe sorriu, com um ar enigmático.

 

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TOP 10 Infantilidades

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A minha avó

Imagem retirada do blogue: http://positivopensamento.blogspot.com/ que provavelmente a retirou de outro lugar...

“O tempo passa a voar”,
ouvi alguém a dizer.
Deitei-me de papo ao ar,
sempre à espera de o ver.

Vi passar alguns pardais,
andorinhas e gaivotas
e lá longe, muito longe,
aviões nas suas rotas;

Abelhas e borboletas;
folhas que o vento levou;
o papagaio do vizinho
preso ao fio que lhe atou;

aquela nuvem no céu
que parece um animal…
Já vi passar tanta coisa,
mas do tempo nem sinal!

Perguntei à minha mãe
como é que o podia ver.
Disse que estava ocupada,
não tinha tempo a perder;

que invejava a minha vida:
tempo para dar e vender.
“Isso está bom é para ti,
não tens nada que fazer …”

Se não sei o que é o tempo
como é que o posso perder?
Se ninguém me ensinar
como é que eu hei-de aprender?

Vou perguntar à avó,
que ela deve saber!
Quem já viveu tantos anos
é que me há-de valer…

Contou-me tantas histórias
que me senti um sortudo:
é sempre tão bom ouvi-la…
A minha avó sabe tudo!~

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A orquestra


Oh que orquestra tão sinfónica

Cada qual é para o que é…

O Noé toca oboé

E a Mónica, harmónica.


Dona Fausta toca flauta

A Ivone, saxofone

A Simone, no trombone

E nem olha para a pauta


Nunca nada lhes sai mal

Faria toca bateria

A Sofia assobia

Que a orquestra é especial


João toca acordeão

Catarina, concertina

Marina toca ocarina

Com excelente actuação.

Bandarra toca guitarra

para animar os vizinhos

E eu cá toco ferrinhos…

Nós gostamos é de farra


O Silvino toca o sino

Bernardete, clarinete

Elisabete, trompete

Justino toca violino


E tudo soa tão belo

A Lola toca viola

Como aprendeu na escola

O Marcelo, violoncelo


O Albano no piano…

Mas para tudo andar “presto”,

O Ernesto é o maestro…

E há festa todo o ano!

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Apenas brincando

Quando eu estiver, no quarto, construindo um edifício de blocos,
Por favor não diga que eu “estou apenas brincando”.
Já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco.
Sobre equilíbrio e forma.

Quando eu estiver bem vestido, arrumando a mesa, cuidando do bebé,
Não tenha a ideia de que eu “estou apenas brincando”.
Já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco.
Algum dia eu posso ser uma mãe ou um pai.

Quando você me vir até meus cotovelos na pintura,
Ou ajeitando uma moldura, ou moldando e dando forma à argila,
Por favor não me deixe ouvi-lo dizer que eu “estou apenas brincando”.
Já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco.
Eu estou me expressando e sendo criativo.
Algum dia eu posso ser um artista ou um inventor.

Quando você me vir sentado em uma cadeira “lendo” para uma audiência imaginária,
Por favor não ria e não pense que eu “estou apenas brincando”.
Já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco.
Algum dia eu posso ser um professor.

Quando você me vir recolhendo insectos ou colocando coisas que encontro no bolso,
Não os jogue fora como se eu “estivesse apenas brincando”.
Já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco.
Algum dia eu posso ser um cientista.

Quando você me vir montando um quebra-cabeças,
Por favor, não pense que estou desperdiçando tempo “brincando”.
Já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco.
Estou aprendendo a concentrar-me e resolver problemas.
Algum dia eu posso ser um empresário.

Quando você me vir cozinhar ou provar comidas,
Por favor não pense que estou aproveitando, que é “só para brincar”.
Já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco.
Eu estou aprendendo sobre os sentidos e as diferenças.
Algum dia eu posso ser um “chef”.

Quando você me vir aprendendo a saltar, pular, correr e mover meu corpo,
Por favor não diga que eu “estou apenas brincando”.
Já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco.
Eu estou aprendendo como meu corpo trabalha.
Algum dia eu posso ser um médico, uma enfermeira ou um atleta.

Quando você me perguntar o que fiz na escola hoje,
E eu responder: “Eu brinquei”.
Por favor não me entenda mal.
Já que, entenda, eu estou aprendendo enquanto brinco.
Eu estou aprendendo apreciar e ser bem sucedido no trabalho.
Eu estou preparando-me para o amanhã.
Hoje, eu sou uma criança e meu trabalho é brincar.

Anita Wadley

Anita Wadley, educadora norte-americana, é a autora deste belo poema, que se pode encontrar na Internet em muitos sítios dedicados a crianças.

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A prenda do dia do pai

caderno3

As contas são complicadas

Prenda, assim, que tu me desses,
para as coisas serem perfeitas,
só faltava que tivesses
trazido as contas já feitas:

de somar e subtrair
multiplicar, dividir,

que, filha, na minha idade
as contas são complicadas
e para falar verdade
acabam mal calculadas:

nas parcelas da adição
há trabalho em demasia;
faço mal a divisão
dos minutos do meu dia;

nem sempre sobra um sorriso
para te dar atenção…
ensina-me, que eu preciso,
uma multiplicação.

Ajuda-me a subtrair
as preocupações da vida
e a não deixar só os restos
à minha filha querida!

Lê todos os poemas deste caderno no separador Caderno de Poesia

Quadric2

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Parece que és bruxa

Se pegas na vassoura e aspiras
a voar pelos ares…
parece que és bruxa!
Parece que és bruxa!

Se o céu está escuro e tu adivinhas
que não vai chover…
parece que és bruxa!
Parece que és bruxa!

Se a dor de um amigo também tu a sentes
e não és indiferente…
parece que és bruxa!
Parece que és bruxa!

Se me olhas nos olhos e estás mesmo a ver
o que me vai na alma…
parece que és bruxa!
Parece que és bruxa!

Parece que és bruxa
mas és só… criança

e queres ter direito a sonhar;
a brincar um pouco mais no jardim;
a contagiar os outros com a tua alegria
E a nunca pôr limites à esperança…

parece que és bruxa
mas és só… criança.

Imagem retirada de http://jie.itaipu.gov.br

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Uma partida traquina

Minha irmã mais nova
pôs pasta dos dentes
nos dentes dos pentes
e na minha escova…

Ai, como fiquei
todo pegajoso!
Ela riu, no gozo…
Fingi que gostei.

Para que não troce,
que faço à marota?
Ponho-lhe compota
para ficar mais doce,

ou dou-lhe um beijo
- àquela traquina -
a ver se ela atina
como é meu desejo?
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Cecília e Sissi

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O quarto da Cecília está cheio de peluches por todo o lado: dois ursos, um gato branco, um tigre, um leopardo, dois pandas brancos e pretos, uma vaca, uma galinha colorida, um coelho castanho, um grande rato cinzento, uma boneca pequena de roupa e cabelos de lã vermelha, e outros mais.


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A menina gosta muito dos seus peluches e brinca muito com eles. Os tios e avós costumam dar-lhos quando ela faz anos ou pelo Natal. No dia em que soprou as quatro velas no seu bolo de aniversário, recebeu dois peluches novos – um leão e outro panda com um filhote.

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Aqueles peluches, que eram novidade lá em casa, foram ocupar os lugares do quarto de que todos os peluches gostavam mais: junto da caminha da menina. Os que antes ocupavam aquele lugar foram empurrados para mais longe. É preciso dizer que, longe da caminha da menina, os peluches ficavam com um ar mais triste. Todas as noites a Cecília escolhia um peluche para levar para o quentinho da sua cama e adormecia agarrada a ele. Nas primeiras noites calhou aos novos essa sorte mas depressa deixaram de ser novidade.

Quando a menina não estava no quarto havia grande agitação entre os peluches, todos procurando um lugar que atraísse a sua atenção quando voltasse.

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Muitas vezes, depois de vir do Jardim-de-infância, ia brincar com eles. Era uma alegria para os peluches. Mas havia uma boneca que parecia não partilhar de toda aquela alegria. Ficava no canto mais escondido do quarto, sozinha e triste, com um olho de vidro já sem brilho (o outro já faltava), os cabelos compridos de um lado e curtos do outro. O seu vestido tinha perdido a cor. Já há muitos meses que não era escolhida para dormir com a menina e nem sequer para partilhar as brincadeiras com os outros. Estava mesmo triste, no meio da agitação que havia no quarto.


De repente, fez-se muito silêncio. A menina acabava de chegar a casa e dirigia-se ao seu quarto. Trazia um avião de papel na mão e foi mostrá-lo aos peluches que estavam perto da sua camita. Depois explicou-lhes que aquilo voava. Achou que os peluches não acreditavam no que ela lhes dizia e atirou-o.

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Não voou muito bem e foi aterrar na cama, mesmo perto dela. Nenhum peluche se riu mas a menina percebeu que estavam cheios de vontade. Foi buscá-lo e atirou-o de novo.

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Desta vez o avião voou mesmo e foi aterrar no canto mais longe e ficou no colo da boneca. A Cecília correu a buscar o avião e, quando o agarrou, reparou na Sissi, a sua boneca grande, com aquele ar triste, de boneca abandonada. Pegou nela ao colo e esqueceu o avião.

Passado um pouco de tempo, sentou-a numa pequena cadeira de plástico e foi à cozinha buscar umas bolachas. Sentou-se na outra cadeira, ofereceu uma bolacha à Sissi e foi mordiscando as outras. Foi também buscar duas chávenas e um bule do seu conjunto de brincar e serviu um chá, recomendando à boneca para ela beber com cuidado e não se queimar.

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Depois do chá e das bolachas, estava a calçar as suas pantufas dos ursos, para ficar mais confortável, quando se lembrou de qualquer coisa. Levantou-se e pôs a boneca ao seu lado. Sorriu e disse: – Olha, anda ver.

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Com a boneca ao colo, correu até à sala onde havia uma fotografia das duas. A Sissi era, naquela fotografia, uma boneca muito linda, com um vestido cheio de cor, belos cabelos compridos, uns olhos brilhantes e, sobretudo, era mais alta do que a Cecília, que a abraçava com ar muito feliz.

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Brincaram juntas o resto da tarde.

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À hora do jantar, quando a mãe chamou, foram as duas. A mãe reparou nelas e disse:

- Nunca mais cosi o olho à boneca mas pode ser hoje.

Mal acabou de jantar e enquanto a Cecília continuava a comer – é preciso que se diga que a Cecília demora sempre muito tempo a comer – a mãe foi buscar o estojo de costura e lá encontrou o olho, que coseu no sítio de onde se soltara. A boneca ficava agora com melhor aspecto. A mãe virou-a para a Cecília e perguntou à filha:

- Ainda te lembras quando cortaste o cabelo à Sissi? Cortaste também o teu. Tive que te cortar todo o cabelo muito curto. Até te ficava bem… as avós é que ficaram muito tristes.

- Corta também à Sissi. – pediu a Cecília.

- Já que estou com a tesoura na mão, pode ser.

Depois do corte do cabelo, para ficar todo igual, e de mais alguns pequenos retoques, a boneca ficou engraçada.

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- Agora vamos lavar os dentes que são horas de ir para a caminha. – disse a mãe, e acrescentou: – Já estou a ver quem vai ser hoje a tua companhia.

Dentes lavados, a Cecília vestiu o pijama. Achou que a boneca também devia tirar aquela roupa para dormir e pediu à mãe uma roupa para a Sissi. A mãe foi buscar uma linda camisa interior com flores bordadas, que já não servia à menina mas que à boneca ficava um espanto.

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E a Cecília adormeceu, feliz, abraçada à Sissi que estava de novo com um ar alegre que tinha perdido há muito tempo.

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(Esta história escrevi-a quando a minha filha tinha 4 anos e ilustrei-a com uns desenhos dos seus peluches para dar a forma de livro ilustrado. Claro que a menina gostou. )

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MV CP

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As mentiras do vento


A Cecília gosta muito de ouvir histórias. A toda a hora está a pedir ao pai ou à mãe que lhas contem.

Não se importa de ouvir as mesmas histórias vezes sem conta mas os pais é que protestam quando têm que ler a mesma outra e outra vez.

Naquele dia havia uma feira do livro na praça. O pai viu ali uma boa oportunidade de encontrar novas histórias e não ter que contar sempre as mesmas.

No fim da tarde, quando o calor já era mais suportável, foram passear até à feira do livro. Depois de uma tarde sufocante, levantara-se um pouco de vento.

Foi uma visita demorada… havia tanta coisa interessante para ver… tantos livros cheios de imagens bonitas ou de histórias que a Cecília tinha pena de ainda não saber ler mas que imaginava interessantes.

O pai comprou alguns livros dos muitos que folheou. Na banca ao lado havia livros abertos, a estimular a curiosidade das pessoas que passavam. A menina reparou que as páginas iam virando, como se alguém invisível estivesse a ler. Noutra banca, mais livros estavam a ser folheados. Que engraçado!

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À noite, depois do pai lhe contar uma história nova, a Cecília estava com dificuldades em adormecer. O calor era tanto que o pai deixara a janela aberta. As cortinas, que dançavam uma dança alegre, convidavam-na a juntar-se a elas. Levantou‑se da cama e foi até à janela.

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Olhou a paisagem: muitas luzes distantes brilhavam no escuro. A Cecília teve dificuldade em perceber quais daquelas luzes eram estrelas e quais tinham outras origens. O vento, que entrava pela janela, brincava com o cabelo da menina. Baixinho, ao ouvido, contou‑lhe histórias de terras distantes que conhecera, de longas viagens que fizera, de ilhas tropicais por onde se demorara, de terras sequiosas a que levara nuvens com a chuva desejada, de outras gentes que visitara, de animais estranhos que afagara… Como a Cecília gostava daquelas histórias… ficou toda a noite a ouvir o que vento lhe sussurrava ao ouvido. Gostava delas mas… sabia que era tudo mentira. O vento conhecia tantas histórias porque tinha estado a folhear os livros que estavam nas bancas da feira e tinha lido todas aquelas histórias cheias de imaginação.

De manhã acordou, fresca que nem uma alface, e ficou sem conseguir distinguir aquilo que na realidade tinha acontecido do que fizera, apenas, parte dos seus sonhos.

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Abram e brinquem

Este é o primeiro passo

de uma viagem

que se espera longa.

Não imagino onde me levará

nem quem embarcará comigo

nesta aventura…

Abram e brinquem

http://outrapartedemim.blogs.sapo.pt/arquivo/livro.jpg

Ofereço-vos um presente

Que, espero, vos dará muito gozo…

É um presente diferente:

Não tem um embrulho vistoso

Nem um laço a condizer

Mas espero que o abram

Sempre que vos apetecer

E brinquem, sonhem, aprendam,

Foi feito com muito amor

E com a secreta esperança

De encontrar em cada leitor

Alguém em quem vive uma criança.